Bate Papo | Emilia Sauaia

U Por Guilherme Murayama 

Um dos objetivos do Incendiário sempre foi falar sobre diferentes visões do cinema. Com a série de posts Bate Papo, conversaremos com cineastas que possam mostrar como é estudar e produzir cinema, dentro e fora do Brasil. Queremos entender um pouco mais a vida, os sucessos e as dificuldades de quem se aventura a entrar no mundo cheio de altos e baixos do cinema que tanto gostamos.

Nossa primeira entrevista é com a Emilia Sauaia. Aos 23 anos ela saiu de São Paulo e foi estudar cinema em Nova York. Lá, conheceu um pouco mais do mundo, teve de aprender a se virar sozinha e descobriu bastante sobre linguagem cinematográfica. Como diretora de fotografia, Emília participou de projetos premiados incluindo melhor fotografia no 100 Hours Film Competition em 2014. No vídeo abaixo, Emilia fala um pouco sobre seu trabalho:

Enquanto estava no Alaska filmando um documentário sobre as baleias jubarte, Emilia conversou com a gente sobre cinema, referências, bons diretores, as diferenças entre as experiências aqui no Brasil e agora no exterior e seu novo projeto. Confira a entrevista abaixo:

Como é estudar cinema nos Estados Unidos?
Tenho a impressão que estudar aqui me colocou em contato com a raiz do cinema. Estudando diretores como Hitchcock, Scorsese, Almodovar, Coppola, Von Trier, pude ter uma visão do cinema que antes não tinha. Também conta o fato de que antes de estudar cinema em NY eu trabalhava com TV em SP. Estudei primeiro direção de cinema e depois direção de fotografia.

No primeiro curso entendi a importância do cinema e me aprofundei em entender a dinâmica no set de filmagem, a responsabilidade de cada um na realização de um filme, aprendi a dirigir atores e a dirigir a equipe para chegar a um objetivo final, que é a concretização da visão. No segundo curso me surpreendi quando aprendi como a psicologia está diretamente conectada ao cinema. Ferramentas como posicionamento de câmera, como iluminar, qual lente escolher, cores, tons, temas; nada é por acaso, tudo é bastante planejado. E todas essas decisões estão ligadas ao psicológico do personagem, ajudando quem está assistindo a se conectar com a história. E isso foi fascinante, a partir daí eu descobri a paixão pela fotografia no cinema, documentários, clipes, peças…

O que mudou na sua visão sobre trabalhar no cinema norte-americano entre hoje e quando você saiu do Brasi?
Infelizmente não cheguei a trabalhar com cinema enquanto vivia no Brasil. Eu trabalhei durante três anos com produção e direção de programas para TV. Hoje realizo trabalhos para o Brasil como correspondente internacional para grandes canais, filmo para programas de TV e comerciais que são exibidos no Brasil.

Durante a filmagem de uma novela no ano passado, pude perceber algumas diferenças: sinto que os americanos respondem diferente às regras, como robozinhos. Nada sai do programado e, se sai, o não programado também já estava programado. E a equipe brasileira era um pouco mais solta e essa ‘falta de regra’ fazia tudo estar sempre corrido. Acho que no geral a vida dos americanos é mais regrada em muitos sentidos e isso também se aplica na produção de qualquer material audiovisual.

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Qual é a diferença entre a Emilia hoje e a que foi para NY em 2011?
A Emilia de hoje é mais conectada com ela mesma. Minha vida realmente mudou depois que me mudei pra NY, aprendi a dar mais valor à minha profissão, a reconhecer paixões e o oposto disso em diversos setores, passei a dar mais valor à minha família, meus amigos, ao Brasil. A Emilia de 2011 estava num processo de descobrimento, recém formada em Rádio e TV, trabalhando com TV, morando com a família, festeira, maluquinha… Diria que NY me ajudou a encontrar um equilíbrio em alguns desses sentidos e isso me ajudou muito a fazer novos contatos, principalmente a observar, a aprender a me virar sozinha, a ficar mais atenta, mais ligada e, com isso, consegui trabalhar com projetos que abriram mais ainda minha cabeça para novos mundos, culturas, gostos, ideias. Felizmente esses projetos têm aparecido com certa frequência e isso me deixa muito feliz!

Teve alguma história relacionada ao cinema que te marcou?
Teve a história do meu primeiro filme, Blemish, que me marcou muito, por que TUDO deu errado. Resolvi fazer a minha tese em 35 milímetros e a complicação já começa por aí. Além de dirigir, produzir e escrever o filme, eu também dirigi a fotografia. Filmei boa parte num apartamento super chique em Tribeca e tínhamos 6 horas pra filmar 6 cenas diferentes, set up diferente, atores diferentes.

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Blemish, 2012

A diretora de arte estava apaixonada pelo iluminador e usavam o quarto da cena como ninho do amor. O operador de câmera estava desesperado porque tinha sido mandado embora do apartamento que morava. A assistente de câmera pensava mais em comer o hambúrguer do que em trocar o filme da magazine. E a assistente de arte grudou silver tape na parede e arrancou toda a tinta do apartamento chique na hora de desmontar o cenário. Milhões de coisas aconteceram e eu me lembro que quando todos saímos do apartamento, eu sentei na van e chorei desesperadamente de tanto stress. Acabou que o filme não saiu como eu visualizei e tive que cortar muitas cenas. Mas eu nunca vou esquecer do que foi a realização desse filme, ele se tornou o mais especial pra mim até hoje.

Teve também a filmagem de Constance Hersh, que foi para uma competição de cinema internacional, onde a produção do festival envia o tema, objeto de cena e uma ação do personagem para todas as equipes ao mesmo tempo e a partir daí todos têm apenas 100 horas para a criação do roteiro, filmagem e edição. Ganhamos melhor fotografia e terceiro melhor filme, um ótimo resultado num filme onde a equipe toda quase teve hipotermia. Filmamos em um prédio abandonado no meio do inverno de NY, a missão do assistente de produção era achar uma lata grande de lixo vazia durante a maior nevasca, ele encontrou. No meio do set colocamos essa latona de lixo com todos os papeis que encontramos, madeiras, qualquer coisa que queimasse e colocamos fogo. Era ali que todo mundo ia depois de ouvir ‘corta’. Foi engraçado, são muitas histórias…

E o projeto com as jubartes? Conta pra gente como foi.
Eu sempre me interessei muito pela vida dos animais selvagens, histórias de pessoas que sobrevivem às dificuldades impostas pela natureza, etc e estava procurando a próxima aventura desde que voltei de San Diego, onde mergulhei com tubarões num documentário para o Discovery Channel. Um dia, estava na escola trabalhando quando recebi uma mensagem que falava muito brevemente sobre uma possível viagem ao Alaska e queriam saber se eu estaria interessada em filmar um documentário lá. Na mesma hora disse “YES!”, com toda certeza!

emilia_sauaiaNo dia seguinte tivemos uma longa reunião com a cientista especialista em baleias Cynthia D’Vincent, a primeira pessoa a publicar um comportamento específico das baleias Jubarte. Esse comportamento se chama Cooperative Feeding, onde uma das baleias desce até as profundezas do oceano abaixo de cardumes de Hering soltando inúmeras bolhas ao redor do cardume enquanto outra baleia canta embaixo d’água (sim, canta), o canto é de uma frequência tão enorme que faz os peixes ficarem confusos/paralisados e presos dentro desse muro de bolhas, o cardume todo sobe junto com as bolhas e todas as baleias se alimentam dele na superfície pulando para fora da água engolindo o máximo de peixes que conseguem. Os peixes também passam de uma boca pra outra e para a outra e para a outra… é um processo incrível e a sincronia das baleias para tudo isso acontecer é inacreditável!! Lembrando que são baleias de 9, 10 metros ou mais.

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Embarcamos para o Alaska dia 9 de julho e ficamos hospedadas num farol chamado Five Finger Lighthouse, de 1902, localizado numa ilha no meio do nada no oceano do Alaska. Éramos seis mulheres e ficamos uma semana filmando sem parar, passávamos cerca de oiro horas no barco atrás das baleias. Foi inesquecível e as imagens ficaram de outro mundo. Em alguns momentos eu achava que tinha morrido e não sabia, porque tudo, paisagem, animais, jubartes, águias, focas, orcas, tudo era muito inacreditavelmente lindo!

lighthouse-frame-grab-west-2Falando um pouco mais sobre cinema em geral, quais são suas grandes influências?
Eu sou louca pelos filmes do Lars Von Trier, Clint Eastwood, Angelina Jolie (brincadeira), Paolo Sorrentino, Tarantino, David Fincher, Irmãos Coen e diretores de fotografia como Mihai Malaimare Jr, Emmanuel Lubezki e Robert Richarson.

Alguns diretores de foto com quem já trabalhei também me inspiram muito. Zac Halberd, Stefano Ferrari, Piero Basso, Till Neumann e Eliana Alvarez são alguns nomes. Também tem pintores e desenhistas como Egon Schiele, Moholy Nagy, Rothko, Kandinsky. E  sou apaixonada por documentários e filmes experimentais.

Nós sempre gostamos de ver coisas novas. Tem algum filme que você gostaria de indicar pra gente?
Alguns que me lembro rapidamente são:

Tangerine

Sam Baker, 2015

El Classico

Halkawt Mustafa, 2015

Children of the Mountain

Priscilla Anany, 2016

Snow in Paradise

Andrew Hulme, 2014

The Return

Katie Galloway, Kelly Duane de la Vega, 2016

After Spring

Steph Ching, Ellen Martinez, 2016

 

É isso, caras. Esse foi nosso primeiro Bate Papo. Foi muito bacana conversar com a Emilia, que tirou um tempo em pleno Alaska pra responder a gente. Pra quem quiser saber um pouco mais sobre o trabalho dela, acesse o site emiliasauaiadp.com ou siga no Instagram @emiliasauaia

Do lado de cá, já estamos planejando o próximo bate papo, deve sair em breve. ^^

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