Crítica | Mais Forte que o Mundo

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N Por Guilherme Murayama

No cinema, assim como nos livros, um dos aspectos mais importantes para a construção de uma boa história é o ritmo. Para a narrativa fluir bem, o argumento não basta, é necessário que o diretor e o escritor saibam o que estão fazendo. Afonso Poyart é um caso raro de cineasta brasileiro que consegue equilibrar em si mesmo ambas as qualidades. “Mais Forte Que o Mundo” é um dos poucos filmes nacionais em que o roteiro, escrito por Poyart ao lado do consagrado Marcelo Rubens Paiva, se sobressai durante toda a narrativa.

Afonso Poyart já havia demonstrado toda a sua qualidade como cineasta no diferente “Dois Coelhos”. Distante do terreno comum e seguro do cinema independente brasileiro, Poyart constrói longas universais e cheios de ação. Isso é bem importante. O cinema nacional em geral é fraco no gênero. O diretor tem a capacidade de misturar rigor com flexibilidade, adotar boas trilhas sonoras sem tanta pretensão. O resultado é movimento, um longa com pulsação quase inexplicável que diverte e emociona independente de suas falhas. A velocidade se sobrepõe ao conforto. Numa área pouco comum, Poyart se destaca como o maior expoente nacional de uma categoria quase sem nome.

A falha mais significativa do filme está na qualidade das atuações. Com um primeiro ato forçado e praticamente caricato, Rômulo Neto, Jackson Antunes e José Loreto constroem um início pouco verossímil e nada competente. Como contraponto, Milhem Cortaz extrapola suas capacidades ao fazer um papel sútil e difícil na pele do treinador Dedé Pederneiras. Em conjunto, Cléo Pires ajuda na história amorosa e dá força a personagem de Viviane, a esposa de José Aldo. A partir do segundo ato tudo começa a funcionar, o humor está bem colocado e a própria atuação de Loreto passa a ganhar mais nuances. O resultado é, estranhamente, um segundo ato melhor que o primeiro.

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Mesmo para quem não se interessa tanto por luta, como experiência cinematográfica, o longa vale à pena. José Aldo sempre foi um dos personagens mais interessantes no meio apático e teatral do UFC. Tido como campeão do povo, sua história é cheia de marcas, altos e baixos. “Mais Forte Que o Mundo: A História de José Aldo” é um filme que opera no limite, entre linhas tênues de melodrama e ação, tudo ao mesmo tempo. Um longa poderoso elaborado por um dos mais criativos cineastas nacionais.

Nota: 8

 

Mais Forte Que o Mundo: A História de José Aldo
2016, 107 min
Direção: Afonso Poyart;
Roteiro: Afonso Poyart, Marcelo Rubens Paiva;
Elenco: José Loreto, Cleo Pires, Romulo Neto, Milhem Cortaz, Jackson Antunes, Claudia Ohana;
Fotografia: Carlos André Zalasik;
Edição: Lucas Gonzaga

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