Crítica | Perdido em Marte

E Por Vinicius Menegolo

É prazeroso que possamos ver novos filmes de Ridley Scott, especialmente um de ficção científica. Alien (1979) e Blade Runner (1982) são duas das melhores ficções científicas de todos os tempos. Agora, depois de três filmes questionáveis – Prometheus (2012), O Conselheiro do Crime (2013) e Exodus (2014) – Scott prova que ainda está em forma e entrega um excelente e bem acabado filme com Perdido em Marte.

Baseado no livro de mesmo nome de Andy Weir, Perdido em Marte conta a história de Mark Watney, um astronauta americano que luta para sobreviver sozinho em Marte. A tripulação é forçada a deixar o planeta durante uma gigantesca tempestade de areia e Watney é considerado morto após sofrer um grave acidente a caminho da aeronave. Mas o astronauta estava vivo e agora precisa encontrar maneiras de sobreviver até a próxima expedição chegar.

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Pela sinopse, parece óbvio que o filme se trata de um intenso drama psicológico, acompanhando o desespero e a solidão de um homem definhando em um lugar inóspito e hostil. No entanto, Perdido em Marte segue um caminho totalmente diferente e é, surpreendentemente, bastante divertido. Os personagens, o roteiro e o tom são bem leves, quase cômicos. Watney é, provavelmente, o ser humano mais positivo da Terra (e de Marte, claro) e encara a situação com grande senso de humor, sempre buscando o lado bom dos acontecimento e contanto diversas piadas para o diário de vídeo da expedição.

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Matt Damon está ótimo como Mark Watney. O ator lidou muito bem com o desafio de estar sozinho em tela durante todo o filme, frequentemente falando diretamente com a câmera. O humor é levado com maestria e, quando necessário, a troca para uma atuação mais tensa e dramática é feita com rapidez, revelando que por trás de todo aquele bom humor há um homem prestes a quebrar. A cena onde Watney precisa remover um pedaço de metal de seu abdômem é arrepiante.  Com uma atuação inferior, o filme desmoronaria.

O elenco coadjuvante também impressiona. Jessica Chastain está ótima como Melissa Lewis, a comandante da expedição. Com pouca cenas, a atriz consegue transmitir o peso em seus ombros por deixar um de seus tripulantes para trás, uma personagem desiludida, mergulhada em culpa. Jeff Daniels está fantástico como Teddy Sanders, diretor da NASA que faz tudo ao seu alcance para conseguir resgatar Watney com vida. O ator combina suas habilidades dramáticas e de comédia em uma performance peculiar, sendo firme com a exata quantia de humor necessária. Mas o maior destaque é Chiwetel Ejiofor. Nomeado ao Oscar por sua intensa atuação em 12 Anos de Escravidão (2013), Ejiofor apresenta aqui uma performance muito mais sutil como Vincent Kapoor. Atuações mais contidas podem ser impressionantes, e é isso que Ejiofor faz em Perdido em Marte.

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Kristen-Wiig e Chiwetel Ejiofor na sede da NASA

Em termos técnicos, o filme é quase impecável. Muito bem filmado e com ótima fotografia, Perdido em Marte é visualmente admirável. A combinação de planos muito abertos com a paleta avermelhada traduz perfeitamente a solidão e a desesperança diante do protagonista. Na Terra, os planos são mais fechados e a paleta muda para um tom mais azul e sombrio, evidenciando a preocupação da equipe em preparar tudo a tempo para o resgate. A correlação planeta azul/planeta vermelho é evidente, mas usada com propósito e não apenas como ornamento.

E a direção de Ridley Scott é primorosa. Planos longos e abertos em Marte fazem contraponto com planos mais rápidos e fechados na Terra. A mudança de ritmo e de técnica é impressionante e extremamente bem feita. Scott também sabe como posicionar muito bem a câmera para intensificar tanto o drama quanto a comédia. De novo, a cena em que Watney retira o pedaço de metal do abdômen é fantástica, remetendo aos trabalhos de horro do diretor. As cenas em que Matt Damon fala diretamente com a câmera funcionam precisamente, sem parecerem plásticas demais ou pura distração. É formidável ver um grande diretor executar com perícia coisas que geralmente são mal exploradas.

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Apesar de todos os méritos, Perdido em Marte vacila em alguns pontos. O humor, uma das principais qualidades do filme, é usado em excesso. Algumas situações poderiam ter sido abordadas de uma forma mais séria, explorando toda a tensão envolvida na ocasião. Com uma maior carga dramática, haveria uma maior conexão com o protagonista. Em determinado momento, Watney parece invulnerável. Além disso, Watney mal aparece nos últimos vinte minutos de projeção. O foco muda completamente para o time da NASA e seus desafios para lançar uma nova expedição à tempo. Apesar dessa dinâmica ser interessante, manter a audiência longe do astronauta por tanto tempo é um erro. As angústias de Watney em Marte são muito mais interessantes que conversas burocráticas num escritório.

Com grandes atuações, excelentes roteiro e direção e uma fotografia fenomenal, Perdido em Marte é um ode aos clássicos de ficção científica. Capaz de encantar as gerações que cresceram com E.T. e De Volta para o Futuro e também os mais jovens, o novo filme de Ridley Scott é certamente um dos melhores do ano.

Nota: 8

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Perdido em Marte
The Martian, 2015, 144min
Direção: Ridley Scott
Roteiro:  Drew Goddard
Elenco:  Matt Damon, Jessica Chastain, Jeff DanielsKristen Wiig, Chiwetel EjioforMichael Peña
Edição: Pietro Scalia
Fotografia: Dariusz Wolski
Trilha sonora: Harry Gregson-Williams

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