Crítica | Os Oito Odiados

O Por Vinicius Menegolo

O maior problema de Os Oito Odiados é o longa ser um filme de Quentin Tarantino. Há muita expectativa sobre seus novos trabalhos e essa expectativa pode impedir que a qualidade do material seja apreciada. Aqueles que esperam que o diretor entregue o mesmo que em seus últimos filmes irão, certamente, se decepcionar. Em essência, Os Oito Odiados difere bastante de Bastardos Inglórios e Django. Não há um sem fim de cenários, figurinos e personagens. O oitavo longa de Tarantino é marcado pela concisão: tudo se resume a oito pessoas enclausuradas em uma cabana durante uma nevasca nos confins do Wyoming. Oito pessoas conversando durante as três horas de projeção.

Com diálogos – e monólogos – espetaculares, Tarantino conduz com maestria a trama que se passa em praticamente uma única locação: o armazém da Minnie. Todos os personagens são introduzidos exclusivamente através de diálogos muito bem elaborados, uma das maiores – se não a maior – qualidade de Tarantino como roteirista. Estão todos trancados naquela cabana, ninguém parece confiável e todos têm motivo para desconfiar de todos. Tudo que se sabe sobre aquelas pessoas é o que foi dito sobre elas. A atmosfera de tensão transborda a tela e atinge em cheio o espectador. Isso só é possível porque a audiência sabe tanto quanto os personagens. Qualquer flashback ou aprofundamento prévio na história de alguém ali faria tudo desmoronar. É do desconhecimento que surge a tensão.

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O Armazém da Minnie é um personagem à parte. Graças à belíssima direção de fotografia de Robert Richardson (A Invenção de Hugo Cabret) é possível sentir o ambiente. A diligência e a cabana são insuportavelmente claustrofóbicas. Um aperto desconcertante que incomoda cada vez mais e pressiona os personagens um contra os outros. A falta de espaço favorece um conflito que parece inevitável. E há também o frio impiedoso de Wyoming. É possível sentir a agonia dos personagens toda vez que a porta do armazém é aberta a chutes. Cada gole de café quente se torna um reconforto para a audiência. Situar tão bem o frio é fundamental para tornar um dos eventos incitantes do filme ainda mais significativo. Soma-se a isso a incrível trilha sonora de Ennio Morricone, que mescla os elementos clássicos das trilhas de Spaghetti Western com uma certa carga de horror, deixando o ambiente pesado, tenso. Uma combinação perfeita.

Por seu novo trabalho, Tarantino tem sido taxado de racista, por exagerar no uso do termo “nigga”, e misógino, por exagerar nas agressões sofridas por Jennifer Jason Leigh ao longo do filme. Nenhuma das acusações parecem corretas. O filme se propõe a ir muito além do que se passa na cabana. Há uma metáfora sobre a história e a configuração da sociedade americana e a história americana não é nada simpática com mulheres ou negros. O riso na boca do xerife Chris Mannix sempre que Daisy Domergue é surrada, e suas falas sobre o Major Warris e os negros em geral expõem pensamentos que, infelizmente, perduram até hoje.

“Quando os negros estão assustados,
aí é que os brancos estão seguros.”

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Walton Goggins é o xerife Chris Mannix

Característica comum nos filme do diretor, as atuações aqui são extraordinárias. O texto de Tarantino não é nada fácil e jogar seu texto verborrágico nas mãos de atores pouco talentosos seria desastroso. E o elenco de Os Oito Odiados soube como interpretar Tarantino. Os destaques aqui são Jennifer Jason Leigh e Samuel L. Jackson. Leigh está fenomenal como a condenada Daisy Domergue, alguém que não teria o mesmo impacto caso a atriz não atingisse o tom sarcástico exigido por sua personagem. Domergue mostra como é uma mulher forte ao se manter firme e irônica mesmo sendo agredida o tempo todo. Uma recompensa pela sua cabeça não foi posta à toa e a performance de Leigh deixa isso claro. Atuação digna das indicações que a atriz recebeu em praticamente todas as principais premiações. E se Leigh teve o reconhecimento que merecia, Samuel L. Jackson foi completamente menosprezado. Com uma atuação descomunal, talvez sua melhor desde Pulp Fiction, Jackson suga a atenção do espectador como um ímã. Cada linha sai de sua boca com impacto arrebatador. Suas expressões de desconfiança, raiva e malícia são sutis, porém poderosas. Até mesmo seus silêncios têm muito a dizer. Uma atuação excepcional que merecia maior reconhecimento.

Com a promessa de se aposentar após seu décimo filme, Os Oito Odiados marca um momento importante na carreira de Tarantino. Uma espécie de revisita à própria obra, unindo o começo que o consagrou com o que ele considera seu ponto alto. O resultado agrada bastante. O filme é longo e de ritmo lento, mas não é arrastado nem tem os problemas de edição de Django. Os diálogos são explorados ao máximo, fazendo brilhar os olhos de quem aprecia um bom texto. Fotografia e trilha sonora se unem para criar o clima perfeito de tensão e nervosismo.  Mais uma obra de qualidade de Tarantino, um western com ares de terror, que deve ser apreciada pelo que é, e não pelo que se gostaria que fosse.

Nota: 9

 

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Tim Roth, Kurt Russell e Jennifer Jason Leigh

 

Os Oito Odiados
The Hateful Eight, 2015, 187min
Roteiro e direção: Quentin Tarantino
Elenco: Samuel L. JacksonKurt RussellJennifer Jason LeighWalton GogginsTim RothMichael MadsenBruce DernDemián Bichir
Fotografia: Robert Richardson
Edição: Fred Raskin
Trilha sonora: Ennio Morricone

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