Crítica | A Grande Aposta

A Por Pedro Gallo

A Grande Aposta não é o que eu imaginava. Primeiro porque Steve Carell, que interpreta Mark Baum, não é o alívio cômico do filme. Segundo porque eu esperava uma história do tipo Quebrando a Banca (2008) em Wall Street e o que eu encontrei foi uma ficção com vontade de ser um documentário.

O longa é como se os nerds do clube de AV de Show de vizinha (2004) resolvessem fazer um filme sobre a crise de 2008, em vez de um pornô para ensinar relações sexuais aos jovens do Ensino Médio. O tom didático é escancaradamente assumido, seja pelos letreiros, seja pelas quebras totais de narrativa para explicar um conceito que está sendo discutido na história (dignos de vídeo-aulas do YouTube, só que com famosos).

Foi uma grande saída. Acredite, se você não tem algum tipo de formação em economia, você se sentirá perdido em vários momentos e, justamente quando se está à beira de mandar o Ryan Gosling e o Brad Pitt se foderem, essas digressões surgirão para te salvar. Sem esse tipo de abordagem, acho que seria difícil manter o público prestando atenção em pelo menos metade dos diálogos. Ainda assim, A Grande Aposta é um filme complexo, que exige atenção. Uma vez que os conceitos são explicados, cabe a você relacioná-los com o que já foi previamente e exaustivamente falado.

the-big-short-movie

Algo que eu sempre entendi como problemático de filmes baseados em fatos reais é que a única coisa que eles precisam fazer é simplesmente colocar o letreiro “baseado em fatos reais”. Explico-me: um filme de que gostei muito é O Mordomo da Casa Branca (2013), baseado na vida de Cecil Gaines. Assisti ao longa e fiquei curioso para saber o quanto daquilo era verdade. No fim das contas, muito pouco de fato batia com o que acontecera na vida do personagem interpretado por Forest Whitaker. Essa infidelidade não tira o mérito do filme, de que continuo gostando da mesma maneira, mas direciona para uma inquietude durante todos os outros filmes desse gênero que vejo. É um incessante “mas será que foi assim mesmo?” na minha cabeça.

Pois bem, A Grande Aposta surpreende novamente com sua quebra de quarta parede justamente para te falar “olha não foi bem assim que aconteceu, mas vamos fingir que foi por questões de: isso é um filme e fica melhor se eu te falar que foi assim”. Eu gostei muito dessa ousadia, foi uma quebra verdadeiramente original.

Há outros momentos, contudo, em que o ator se direciona a você justamente para falar “sim, não inventamos, foi realmente assim que aconteceu”. Essa metalinguagem dialoga muito bem com a proposta didática de todo o filme. É como se ele nos falasse “viu? Eu sou honesto, falo quando é só um ornamento e quando a vida supera a arte”. Essa necessidade de mostrar a honestidade do roteiro reforça a ideia de vontade de ser documentário.

O que me incomodou um pouco foi uma falta de aprofundamento nos personagens. Embora a narrativa diga para você que a história é sobre eles, o roteiro indica muito mais um caminho para “o entendimento da crise de 2008”, o que prejudicou a minha empatia pelos protagonistas.

No fim das contas, posso dizer que me diverti muito vendo A Grande Aposta. Não esperava rir tanto quanto o fiz durante as 2h10 de filme, além da grande “aula” sobre atuação dos bancos e do governo americanos durante a crise de 2008. Contudo, não consigo tirar de mim a ideia de que essa foi uma vídeo-aula envolta por um enredo, e não o contrário.

Nota: 8

Anúncios