Crítica | Dodô

F Por Guilherme Murayama

Felipe Nunes aparentemente ainda não esqueceu de sua infância. A temática, presente em sua obra anterior Klaus, retorna em Dodô. Após o reconhecimento no Troféu HQMIX na categoria de “Novo Talento – Desenhista”, esperava-se que a segunda HQ do autor continuasse desenvolvendo a qualidade revelada em Klaus. Entretanto, o salto entre a narrativa estabelecida na primeira graphic novel e Dodô supera a expectativa. Dodô se situa facilmente entre os melhores trabalhos nacionais de 2015 e consolida a escrita incomum de Nunes no primeiro plano entre artistas independentes.

Esqueça todas as narrativas sobre infância. Dodô é contemporâneo, dramático e ágil como poucas vezes se viu. O humor irreverente de Nunes se situa numa linguagem que praticamente só é possível em tempos atuais. O universo infantil se mistura com ironia e pureza. O temperamento de cada um dos personagens oscila entre a tragédia e a comédia, ao mesmo modo de grandes escritores dramáticos. É na simplicidade dos diálogos que se esboça naturalidade e humanidade em cada um dos protagonistas. A história surge aos poucos, do fundo para a cena principal. Um trabalho de contextualização sofisticado que só é permitido pela mente imaginativa de Nunes.

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Nas páginas de Dodô, acompanha-se a vida de Laila. Uma garota que sofre com a distância entre seus pais. Com uma mãe por vezes ausente, Laila não se adapta aos problemas ocasionados pelos adultos e passa seu tempo com brincadeiras solitárias. É exatamente num desses momentos que Laila conhece Dodô, um pássaro misterioso que surge do interior de um parque municipal. Baseado na curiosa avê extinta na Costa Leste da África, Rafuco, como é chamado pela protagonista, apresenta-se como uma figura caótica que traça uma amizade com a protagonista. Enquanto observa essa relação, o leitor começa a entender o cenário complexo da vida de Laila. Todos os dramas da infância que costumam ser esquecidos por escritores mais velhos estão lá: a angústia, a solidão, o inconformismo.

Numa história tão humana quanto as de seus amigos Gabriel Bá e Fábio Moon, Nunes expressa um mundo de sonhos, ilusões e desafios. Dodô é uma narrativa pulsante sobre o período que define boa parte de nossas vidas. O relato da amizade entre Leila e Rafuco, exprime dedicação e paixão. Uma obra máxima sobre a infância que possui uma imensa variedade de qualidades que lhe são próprias.

Nota: 10

 

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