Crítica | Dois Irmãos

D Por Guilherme Murayama

Dois Irmãos é um drama provocativo que acontece nas entranhas de Manaus. A obra, adaptada pelos irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon do romance de Milton Hatoum, desdobra a rivalidade entre dois gêmeos: Omar e Yaqub. Filhos de um imigrante libanês, Halim, e de sua esposa Zana, ambos crescem em caminhos divergentes para se tornarem opostos. Num drama cheio de desdobramentos, com uma tragédia inevitável, o enredo descreve o desenvolvimento histórico e conturbado da cidade de Manaus.

Numa torrente de fúria, paixões e desencontros, o drama familiar possui uma narrativa não linear repleta de personagens ambivalentes e cenários complexos. A densidade literária se apresenta com beleza na adaptação através de momentos silenciosos que captam através das imagens externas os conflitos internos de cada indivíduo. São páginas singulares de força e inspiração cheias de memória. É na ambiguidade que Dois Irmãos se assemelha a outros clássicos da literatura brasileira.

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A escolha dos traços em preto e branco não é ruim. O drama marcado pela divergência acentuada dos irmãos combina muito com a crueza das imagens. Entretanto,  para quem está acostumado com os trabalhos anteriores de Bá e Moon, a ausência de cores faz falta. Isto porque nos últimos anos os gêmeos trabalharam com alguns dos melhores coloristas da atualidade. Dave Stewart, responsável pelo trabalho em conjunto de cores em Daytripper, é o melhor de sua ocupação. Vencedor de inúmeros prêmios Eisner, o colorista norte-americano esboça sentimentos e vivacidade em cada uma de suas páginas. Por esse aspecto, Dois irmãos é um dos trabalhos menos vivos dos irmãos Bá e Moon. E mesmo quando os dois utilizaram as cores ou quando se utilizaram de coloristas nacionais, como é o caso de Cris Peter em sua parceria com Bá em Casanova, o resultado foi excepcional. Portanto, na adaptação, existe menos do tom poético dos artistas. Lavado no preto e branco, Dois Irmãos é um livro mais pesado e menos contemplativo. Uma obra dramática irrepreensível que converge pouco com o restante da carreira recente de Bá e Moon.

Menos sensível e mais visceral, a história dos irmãos Yaqub e Omar desenvolve uma abordagem de tensão do início ao fim. Cheia de tragédias, a narrativa aborda um conteúdo literário contemporâneo pouco explorado. Através de uma imensa pesquisa, Gabriel Bá e Fábio Moon devolvem ao público outro livro excelente. A saga de “Dois Irmãos” chega ao fim com tristeza. É como se o filho de um personagem como Dom Casmurro pudesse tomar conta de sua própria história. A voz é incomum. A escrita e o desenho são imponentes. Os melhores artistas brasileiros se arriscaram e, mais uma vez, acertaram.

Nota: 9

 

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