Crítica | Chappie

N Por Guilherme Murayama

Atuações excessivas. Direção infantil. Roteiro inconsistente. Chappie é um projeto interessante que não foi bem desenvolvido. A trama é sobre um robô, capaz de aprender e pensar, sequestrado por um grupo de traficantes que precisam conseguir uma enorme quantidade de dinheiro para liquidar uma dívida e conseguir uma vida nova. Em meio a tudo isso, Deon (Dev Patel) é um cientista que tenta trazer humanidade para o andróide e aumentar suas possibilidades criativas. Um argumento ambicioso sobre inteligência artificial, desenvolvimento de armas para fins militares e amadurecimento.

É tudo bem improvável. As sequências não se conectam, ou se esforçam demais na tentativa de encontrar alguma coesão. Uma das maiores falhas de “Chappie” é o roteiro com diálgos altamente fictícios do ponto de vista humano e pouco fundamentado em seus encaixes. Nenhuma das ideias, sejam nos diálogos ou no desenvolvimento do enredo, fluem com a mesma naturalidade da narrativa visual. Esta sim, repleta de acertos e construções bem elaboradas.

A computação gráfica é excelente. O espectador se envolve tanto que quase não existe diferenciação entre as cenas em cgi e as cenas gravadas com cenários e personagens reais. Inclusive há muito menos artificilidade no filme que nos elogiados “O Hobbit” e “Mad Max: Estrada da Fúria”, ambos longas considerados por diversas críticas como bem sucedidos no aspecto de integração visual.

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Outra qualidade, constante nos filmes de Neill Blomkamp, é a fotografia documental. A utilização de câmeras subjetivas reforça a veracidade das cenas. Mesmo os exageros presentes na tela parecem um pouco mais verossímeis pelo uso de tomadas realistas, elaboradas com o intuito de simular uma gravação amadora ou fotojornalística. Alguns planos são de tirar o fôlego. Se todo filme tivesse a mesma competência, o nível do cinema seria algo completamente diferente. Paleta dessaturada. Preferência por cores frias no entardecer quando a cena demanda. Sem exageros. Sem chuva. Sem neve. Cenários incomuns, com linhas de trem, poeira, fumaça e terra exposta. Galpãos militares imperfeitos e escritórios burocráticos desgastados, efetivos para a história.

Ninguém consegue filmar máquinas e computação gráfica durante o dia. Quase ninguém. Os longas de Neill Blomkamp conseguem. Não pergunte como. Provavelmente, a presença do diretor na renomada Vancouver Film School lhe permitiu adquirir conhecimentos tanto de profissionais quanto de biblioteca visual que outros diretores não possuem. Nem mesmo Zack Snyder filma tão bem o fantástico ou a ficção científica durante o dia. É impressionante. Mesmo curta-metragens de diretores criados nas escolas de linguagem visual e modelagem 3D não são tão capazes.
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Blomkamp encontrou em Sharlto Copley seu ator ideal. No longa, ele é o responsável por interpretar Chappie, o robô que dá título ao filme. Ao representar a criatura, Copley mostra mais uma vez sua versatilidade. Diferente das parcerias anteriores com o diretor, Sharlto entrega em “Chappie” um papel dócil que vai se desenvolvendo em conjunto com a trama. Se todos os personagens fossem tão ricos quanto o protagonista, o longa ganharia muito em tons dramáticos.

As atuações coadjuvantes são variadas. Blomkamp trabalha bem com os personagens periféricos. Principalmente os que ficam pouco tempo em cena. Todos são excêntricos e reais. Pelo menos nessa parte, o cinema de escala ainda não retirou toda a força do diretor. Entretanto, os militares e personagens burocráticos como o Vincet Moore de Hugh Jackman ou mesmo o Deon Wilson de Dav Patel são quase caricatos e certamente excessivos.

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A trilha sonora é assinada pelo respeitado Hans Zimmer em conjunto com Steve Mazzaro e Andrew Kawczynski. O resultado, como poderia ser previsível, é um tom melodramático que passa longe de reforçar as qualidades emotivas do longa. Zimmer, que ficou conhecido e conceituado depois de suas parcerias com Christopher Nolan em “O Cavaleiro das Trevas” e “Inception”, certamente não é a melhor opção na direção sonora de cenas dramáticas. O conjunto é óbvio e falho. Distante da maestria de compositores como o francês Alexandre Desplat, responsável por trilhas como as de “Tão Forte e Tão Perto” (2011) e “O Jogo da Imitação”(2014), o trio desenvolve mal a combinação entre som e imagem. A verdade é que não é simples atingir o nível sútil que é necessário em longas como “Chappie”. Ação e thriller, como em “Inception”, não têm as mesmas necessidades. Conseguir a quantidade certa de leveza é sempre complicado, mesmo quando se trata de música.

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Chappie é um longa bem único. O assunto é interessante: o aprendizado e o relacionamento com uma inteligência artificial em desenvolvimento. Entretanto, a direção de Blomkamp ainda é confusa. Em alguns momentos ele acerta, ao abraçar questões não tão óbvias e trazer para o cinema uma mistura de um longa periférico com a qualidade das produções hollywodianas. Entretanto, em outros momentos, o diretor comete erros de iniciante. Falhas que seriam mais toleráveis em “Distrito 9”, mas que agora parecem deslocadas num longa mais experiente. Blomkamp parece não dirigir bem os astros. Pelo menos, não tão bem quanto ele dirige atores até então praticamente desconhecidos. O diretor tem bons olhos, é inegável. Sempre leva à tona talentos improváveis em produções de mesma escala. Sobra linguagem visual e bagagem cultural. Falta narrativa cinematográfica. Estabelecer o roteiro. Não se exceder nas câmeras lentas.

Chappie não é algo que se vê todo dia. E, talvez exatamente por isso, poderia ser bem melhor.

Nota: 6,0

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