Crítica | 007: Spectre

N Por Guilherme Murayama

Não espere por um 007 como Skyfall. Spectre, apesar de ser dirigido pelo mesmo diretor do longa anterior, segue por uma narrativa totalmente diferente. Em Skyfall, Sam Mendes trabalhou com a história do personagem para criar uma obra-prima com tons dramáticos inesperados. Agora, em Spectre, o diretor caminha com um longa criado aos moldes que consagraram a franquia no cinema. Isso significa que o novo 007 possui um formato clássico, ainda que com uma linguagem dinâmica própria do cinema contemporâneo.

O Bond cheio de camadas de Craig é tão instável quanto os tempos atuais. Desde Cassino Royale, o espectador presenciou em cada filme um lado até então desconhecido do espião. E ninguém entendeu isso tão bem quanto Sam Mendes. Em seus longas não apenas o agente britânico se transformou como também o mundo à sua volta. É por isso que o diretor consegue em Spectre apresentar Léa Seydoux como uma das mais interessantes personagens femininas da franquia. Ao interpretar Madeleine Swann a atriz cria a protagonista mais sexy dentro da última fase de James Bond. Isto porque Seydoux constrói uma mulher tão cheia de nuances quanto o próprio Bond de Craig. Swamm se estabelece como alguém com quem Bond poderia construir uma relação duradoura. O que significa que sua possível perda também pode causar um dano mais intenso ao agente. Esse nível de envolvimento não era visto na franquia desde a personagem Vesper Lynd, interpretada por Eva Green, no longa Cassino Royale. Assim, Mendes mostra habilidade ao resgatar um ponto importante dentro da fase de Craig como 007. Ao voltar para o início, o diretor reafirma o encerramento de um arco e estabelece uma despedida à altura da excelente fase de Daniel Craig como James Bond.

A abertura de Spectre é outro ponto forte do longa. Resgatando o visual clássico de Goldeneye e Goldfinger, a entrada do novo filme é uma das melhores da história da franquia. Isso não é pouco, considerando tudo aquilo que já foi feito anteriormente. O tom de exageros serve como uma amostra do que vem pela frente. É um retorno ao clássico, uma apresentação exótica repleta das excentricidades que consagraram a franquia. Outro aspecto bem realizado em Spectre é a coreografia. Dave Bautista, lutador de wrestling e MMA, consegue executar as cenas de ação com uma competência incomum. O Sr. Hinx é um coadjuvante físico bem desenvolvido e outro acerto de Bautista. O ator já havia sido elogiado pela crítica pelo seu papel como Drax em Guadiões das Galáxias. A ameaça do personagem supre, ou pelo menos ameniza, a falta de porte ameaçador dos outros antagonistas de Spectre.

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Se entre as qualidades do filme estão as atuações de Dave Bautista e Léa Seydoux, é justamente nos personagens dos veteranos Ralph Fiennes e Christoph Waltz que se encontram algumas das principais faltas do novo longa. Fiennes aparece de modo apático ao interpretar “M”, chefe do serviço britânico. Se colocado ao lado de sua antecessora, a premiada Judi Dench, o “M” de Fiennes se mostra muito mais passivo em relação aos acontecimentos do longa. Dench, em sua fase inicial, também interpretava um “M” que ainda não tinha total confiança no agente 007. Contudo, a interpretação forte e áspera da atriz britânica deu rapidamente à rainha dos números uma característica ambígua que tornou sua aparição indispensável durante duas fases de Bond nos cinemas. Ralph Fiennes, por sua vez, parece apenas estar de passagem. O ator não entrega uma participação no mesmo nível de outras de suas interpretações.

O mesmo problema acontece com o Blofeld de Waltz. Ernst Stavro Blofeld é o vilão absoluto de James Bond. O personagem é um gênio do mal e arqui-inimigo do espião britânico. Como chefe da organização SPECTRE, Blofeld é capaz de desafiar o agente com uma rede estruturada capaz de dar sustentação à sua insanidade excêntrica. Ou seja, Blofeld é um homem de recursos quase ilimitados, e isso se transpõe no personagem. Assim, falta extravagância no Stavro de Waltz. Os mesmos exageros que trouxeram o ator austríaco ao sucesso, agora se mostram insuficientes. Se nos filmes de Tarantino a atmosfera parecia transformar Christoph Waltz numa peça distoante e, por isso mesmo, assustadora, em Spectre o seu Stavro Blofeld parece confortável demais. Hans Landa em Bastardos Inglórios era excessivo no ponto exato. Blofeld em Spectre é apático e comum se comparado aos vilões anteriores. Falta o estranhamento causado pelo Raul Silva de Javier Bardem ou pelo Le Chiffre de Mads Mikkelsen. O vilão de 007 nunca pode ser apenas mais um e, no caso de Spectre, Blofeld infelizmente é.

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Nos aspectos técnicos Spectre está quase inteiramente bem. Os efeitos visuais às vezes se mostram insuficientes e a maquiagem poderia ter reforçado um pouco mais o estranhamento necessário para os vilões. Entretanto, o diretor de fotografia Hotye van Hoytema, responsável por trabalhos recentes indiscutíveis como Interstellar (2014), Her (2013) e O Espião Que Sabia Demais (2011), mantém a solidez de seus últimos longas e constrói um 007 cheio de texturas. A luz, principalmente em ambientes fechados, está densa e cheia de padrões. Além disso, em alguns planos externos, o trabalho de Hoytema alcança o nível imponente, difícil de se alcançar, que se estabeleceu na franquia ao longo dos anos. O mesmo pode se dizer da edição de som. Nas cenas de lutas, o som está preciso. As sequências com Bautista estão verossímeis dentro do possível e os golpes são contundentes. A parte sonora em suma convence, demonstra um cuidado especial na direção.

Outro ponto a favor de Spectre é a apresentação do mundo da espionagem em uma era pós Edward Snowden. Em uma época de vigiliância e dados monitorados, a maior ameaça pode ser a figura burocrática de uma empresa ou mesmo do governo. Sam Mendes apresenta esse problema no personagem “C” do ator irlândes Andrew Scott. Talvez, “C” consiga algo que os antagonistas não conquistaram. O personagem governamental é detestável. Cumpre a representação daquilo que existe de pior nos dias atuais, a figura indiferente, repleta dos pequenos erros que demonstram a arrogância do homem cumum. É uma pena que Andrew Scott não possui tanto espaço dentro do longa, a concepção de seu personagem poderia ter levado o filme à um outro patamar. É na voz fina e na ironia que se percebe o verdadeiro vilão da atualidade.

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Se existe uma palavra de definição para Spectre, esta palavra é transição. Existe uma força em James Bond, uma força construída através de décadas. Não é simples passar o bastão. Mas é necessário. 007 é maior que os seus rostos. Mesmo quando se tratam dos grandes e Daniel Craig é um deles. Foi com o ator que o espião britânico ganhou novas camadas. Craig trouxe James Bond para um novo século: dinâmico, ágil, instável. E está na hora de se despedir. Em conjunto, foi um trabalho excelente. A franquia se tornou ainda maior, amadureceu. Agora, haverá um outro homem por trás do nome, um outro rosto para James Bond.  São novos tempos e as possibilidades são enormes.

Nota: 7

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007: Spectre
EUA, 148min
Direção: Sam Mendes
Roteiro: John Logan, Neal Purvis, Robert Wade e Jez Butterworth
Elenco: Daniel Craig, Christoph Waltz, Léa Seydoux, Ralph Fiennes, Monica Bellucci, Dave Bautista
Fotografia: Hoyte Van Hoytema
Edição: Lee Smith
Música: Thomas Newman

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