Crítica | Beasts of No Nation (Netflix)

U Por Guilherme Murayama

Uma das grandes virtudes humanas é a pureza, como reflete filósofo francês André Comte-Sponville. A pureza é desapegada. Não vê o mal, não sofre de egoísmo. Beasts of No Nation, o primeiro longa-metragem de ficção original da Netflix trata da perda da inocência de uma criança, dos medos, dos desastres ocasionados pela guerra. É por isso, por tratar da impureza e das tragédias humanas, o oposto da virtude de Sponville, que o longa incomoda. E, se o filme é tão desconfortável, dificilmente poderia ser lançado nos cinemas com a mesma maestria com a qual foi apresentado no serviço de streaming. Beasts of No Nation não é uma história comum, é um drama maciço que possui poucos paralelos no cinema contemporâneo. Uma produção impecável sobre assuntos excepcionalmente desagradáveis.

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Idris Elba como Comandante

A dificuldade da temática, entretanto, não torna a experiência enfadonha. Não espere um filme distante do espectador. A narrativa de Cary Fukunaga é, antes de tudo, incansável. O diretor da primeira temporada de True Detective e do drama Sin Nombre (2009) possui a mão certa para tratar de assuntos delicados de forma envolvente. Poucas câmeras e atuações fluem tão bem. O resultado na tela é equilibrado e impactante. Cada enquadramento possui uma preocupação visual incomum. São telas bem executadas que saltam do dia para a noite sem perder ritmo. Os planos abertos são extraordinários. O diretor se utiliza muito bem do fogo, da fumaça e das florestas presentes no enredo. Mesmo entre filmes de guerra, são raras as fotografias que aproveitam tão bem o ambiente. E, ainda assim, não é essa a parte mais surpreendente. Porque são nos closes, como numa cena dentro de uma sala de espera, que a fotografia fica verdadeiramente difícil. A natureza é bela por si só. Mas, as emoções humanas, o tratamento dado às angústias, precisam de suavidade. E todas essas transições são expostas na medida certa.

Abraham Attah como Agu
Abraham Attah como Agu

É ao aproximar o que nos é remoto que Beasts of No Nation consegue superar o que existe de melhor no cinema. Tende-se a se afastar do que não está perto. Portanto, a virtude sobre a qual a história trata é, principalmente, a compaixão. É o zelo pelo que não está próximo. Unir-se com o que está longe. Entender que existem lutas desconhecidas em algum lugar do mundo, neste exato momento. E, se pensarmos bem, elas não estão tão distantes de nós.

Beasts of No Nation é repleto de atuações excelentes, do experiente ator britânico Idris Elba na pele de um comandante contraditório, às descobertas inesperadas como o jovem Abraham Attah que carrega a responsabilidade de interpretar o protagonista Agu. Acompanha-se um menino desde sua infância amável até os absurdos da guerra civil. A narrativa é irrepreensível e atemporal. O primeiro longa-metragem produzido pela Netflix é, até agora, o melhor filme do ano.

Nota: 10

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Beasts of No Nation
Netflix, 2015, 137min
Roteiro e Direção: Cary Fukunaga
Elenco: Abraham Attah,  Idris Elba, Emmanuel Affadzi, Ricky Adelayitor
Fotografia: Cary Fukunaga
Edição: Pete Beaudreau, Mikkel E.G. Nielsen
Trilha sonora: Dan Romer

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