Crítica | What We Do in the Shadows (2014)

A Por Arthur Morais

A comédia é um dos gêneros mais complicados do cinema, pois ela sempre apresenta uma das propostas mais delicadas, já que o humor divide uma linha tênue com o ultraje e com o ridículo. As chances de se parodiar com sucesso mitologias consolidadas e arquetípicas, como os vampiros, são realmente muito baixas. Roman Polanski conseguiu tal façanha com A Dança dos Vampiros (1967), mas essa pérola, que mescla terror e comédia refinados, ficou datada e as novas gerações terão dificuldades em apreciá-la e até mesmo entendê-la. Felizmente, os neozelandeses Jemaine Clement e Taika Waititi conseguiram superar o filme de Polanski com o obrigatório What We do In the Shadows, que é, provavelmente, a melhor comédia de vampiros já filmada.

Desde o começo fica claro que diferencial do filme é o profundo respeito às atmosferas e características peculiares aos arquétipos do mito dos vampiros. Assim, o roteiro se resguardou; garantindo que a tênue linha entre o humor e o ultraje não fosse rompida.

A premissa da película é completamente tresloucada: um mockumentary que acompanha as não-vidas de quatro vampiros. Vladislav, completamente inspirado no sedutor Drácula da versão de Francis Ford Copolla; Viago, uma figura aristocrática e trágica que faz óbvia alusão aos personagens de Anne Rice; Deacon, o homem comum que responde à maldição da vida eterna com uma perturbação rebelde; e Petyr, um vampiro-monstro assustador que evoca a caracterização do conde Orlok em Nosferatu (1922). Dessa forma, What We Do in the Shadows se vale com seriedade do que existe de melhor nos estereótipos vampirescos do cinema e da literatura para só então explorar a comicidade através disso.

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O roteiro do filme é deslumbrante, possui várias camadas de conflito muito bem executadas, diálogos excepcionais e personagens muito marcantes, muito mesmo, até aqueles que têm pouco tempo de tela evocam muita empatia e carisma. Mas, nesse ponto, o principal destaque é com certeza o ritmo da trama que não perde o fôlego em nenhuma sequência.

A comédia do filme é extraída de uma sábia combinação de clichês dos mockumentaries e filmes de vampiro (até o RPG Vampiro: A Máscara é uma das referências) com uma condição trágica de ser um vampiro e ter de passar por um cotidiano realista. Contudo, não há espaço nesta crítica para citar as situações pelas quais os protagonistas passam, elas devem ser apreciadas na experiência do audiovisual.

Além de tudo, What We Do in the Shadows é um dos filmes mais sentimentalmente tocantes de 2014. Em algumas cenas, a comédia se aglutina à melancolia. Estéticas tão conflitantes, quando bem elaboradas, são capazes de sensibilizar o público consideravelmente e este longa neozelandês consegue alcançar isso com facilidade. O elenco possui uma presença sensacional, somado a maquiagem e caracterização, o cast é admirável e surpreendente, os vampiros conseguem exibir suas naturezas monstruosas e divertir ao mesmo tempo.

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Sendo assim, a película não é só uma paródia ou sátira, é um legitimo filme de vampiros que consegue explorar a comédia através do humor negro com elegância. Mesmo quando apela para o nonsense, a trama permanece coesa e adequada tanto ao que o público ocidental consagrou como a figura do vampiro quanto ao universo estabelecido no próprio filme.

What We Do in the Shadows é uma experiência singular. Um daqueles filmes sumamente divertidos com uma história que, mesmo cômica, é profunda e significativa. Os personagens são tão bem elaborados que a empatia é garantida. As chances de que o espectador lamente o fim da película são muito grandes, e isso tem sido tão raro na última década que por si só já vale a pena. É uma obra obrigatória para quem gosta de comédias elaboradas e filmes de vampiros.

Nota: 10

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What We Do in the Shadows
Nova Zelândia, 2014, 86 min
Direção e roteiro: Jemaine Clement, Taika Waititi
Elenco: Jemaine Clement, Taika Waititi, Jonny Brugh, Cori Gonzalez-Macuer

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