Crítica | A Casta dos Metabarões

Q Por Arthur Morais

Quase todo o trabalho apresentado por Jodorowsky em suas HQs é fruto de seu extenso projeto para adaptar o romance Duna, de Frank Herbert, para os cinemas. Embora o projeto não tenha conseguido ir para as telas (saiba mais aqui), o trabalho de pré-produção era de qualidade tão ímpar que deu origem a uma teia gigantesca de influências no cinema e passou a ser aproveitado para a formulação de quadrinhos como Incal, Antes do Incal e A Casta dos Metabarões. Esta última, em específico, é uma série em quadrinhos de ficção científica escrita por Alejandro Jodorowsky e desenhada por Juan Gimenez. A obra alcança a notável proeza de unir surrealismo, em níveis insanos, a uma história clara e imersiva, recheada de tributos à cultura em geral.

A história da HQ expande a figura do Metabarão, personagem que se destacou em algumas páginas de Incal (de Jodorowsky e Moebius). No inicio, deste épico espacial, temos dois robôs, Tonto e Lothar, narrando os feitos dos Metabarões, uma linhagem cuja história remete ao planeta Mármola, habitado pelos guerreiros Castakas que foram dizimados pelo Império. O único sobrevivente desses guerreiros, Othon Von Salza, funda, após uma série de eventos trágicos que o atormentaram, o conceito de Metabarão, um guerreiro implacável, possuidor de treinamentos, armas e riquezas únicas, capaz de aniquilar todo um exército sozinho. Othon torna-se o primeiro Metabarão sendo sucedido hereditariamente por Aghnar, Cabeça de Aço, Aghora e Sem Nome (o último Metabarão, que apareceu em Incal).
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A trama é vasta, complexa e prende o leitor do inicio ao fim. Cada Metabarão possui personalidades únicas, sempre com uma história cercada de tragédia e angustia. Isso torna os metabarões um dos conjuntos de personagens mais bem aprofundados da história dos quadrinhos.

O universo da HQ é gigantesco. Povoado por centenas de sub-tramas e culturas complexas que são exploradas na dose certa, criando conceitos de planetas, criaturas, armas, regimes de governo, religião e etc. que conseguem ao mesmo tempo alcançar uma incontestável originalidade, estabelecendo referências que mesclam filosofia, política, mitologia, fantasia e ficção cientifica.

Em outras palavras, ler A Casta dos Metabarões causa a impressão legítima de que estamos visitando um universo novo, muito mais fascinante do que naqueles que estamos acostumados em outras obras de Ficção Cientifica ou Fantasia Espacial. Jodorowsky e Gimenez construíram em detalhes tudo aquilo que uma trama coerente pode permitir. Um simples quadro da HQ pode fazer o leitor perceber várias mecânicas de funcionamento tecnológicas, culturais, políticas e filosóficas do sombrio universo dos Metabarões. O misticismo e a tecnologia se fundem nessa obra, criando uma ambientação absurdamente surreal onde magia, religião e desenvolvimento técnico têm fronteiras confusas, mal definidas quase inexistentes.

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Além disso, Jodorowsky e Gimenez não tiveram pudores. Quase todas as páginas são desconcertantes ou perturbadoras, cheias de sangue, genocídio, criaturas que desafiam a compreensão humana, incestos, parricídios e dilemas morais que fazem o leitor devorar todas as unhas. A crueldade e a opressão impregnam toda a trama como um cartão de visitas, dando ao público a clareza do que vai ser encontrado na HQ. Apesar de toda a barbárie, ironia e cinismo, o roteiro é culto, mantém a elegância que cabe a todas as verdadeiras sagas épicas, suas referências estão entre as características mais marcantes da obra, são elas: o romance Duna de Frank Herbert, a cultura dos samurais, a obra do filosofo alemão Friedrich Nietzsche, as noções cristãs de virtude e pecado e as lógicas do teatro e dos mitos gregos. Portanto, A Casta tem bastante coisa para ensinar ao seu leitor.

O traço de Gimenez é um destaque cuja competência transformou as páginas de A Casta dos Metabarões em obras de arte dignas de serem expostas em galerias de arte. O design dos ambientes, naves, anatomias de personagens, humanos ou não, devem muito às obras do artista H.R. Giger (criador do xenomorfo, o monstro da franquia Alien) . Os desenhos parecem brincar com a percepção do leitor, alternando entre impressões claustrofóbicas, ambientes abarrotados de máquinas, construções, seres vivos e outros objetos. Também existem quadros que exibem horizontes de dar inveja a muitas panorâmicas do audiovisual. Além disso, a arte de Gimenez é um verdadeiro “monstro”. O sangue e as pitadas de gore são incrivelmente chocantes e sensíveis. As cenas de pancadaria chegaram a níveis épicos tanto pelos desenhos quanto pelo roteiro.

No Brasil, A Casta dos Metabarões foi editada pela Devir em quatro volumes de excelente qualidade, a capa possui orelhas, é cartonada e envernizada. As páginas apresentam papel couché, tudo seguindo o clássico formato Europeu.

Nota: 10

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A Casta dos Metabarões
The Saga of The Meta-Barons, 1992-2003 
Autores: Alejandro Jodorowsky (Roteiro) e Juan Gimenes (arte)
Editora BR: Devir
Preço BR: R$ 54,00 (volumes 1,2,3 e 4)

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