Crítica | Homem Formiga

U Por Vinicius Menegolo

Um filme solo do Homem Formiga foi uma escolha ousada da Marvel para encerrar a segunda fase de seu universo cinematográfico. O Formiga sempre foi um herói secundário, que nunca teve muito destaque nos quadrinhos a não ser pela sua participação entre os Vingadores. Em um universo tão grande, com ameaças planetárias e galáticas, era difícil a tarefa de tornar interessante um filme sobre um personagem tão pequeno. E a Marvel conseguiu. Homem Formiga é extremamente divertido, dinâmico e dá novo fôlego para o MCU.

O maior trunfo de Homem Formiga foi entender seu tamanho. Do personagem e da trama. O filme acerta em cheio ao abordar as ameaças como uma questão local, praticamente familiar. Os Vingadores não podem resolver tudo, é preciso de heróis menores para resolver problemas menores. Nesse caso, literalmente. Não se trata de salvar o mundo ou o universo, mas sim de impedir que a partícula Pym caia nas mãos erradas e que as famílias dos envolvidos sofram.

Evangeline Lilly, Paul Rudd e Michael Douglas.
Evangeline Lilly, Paul Rudd e Michael Douglas.

Michael Douglas é o Hank Pym que os fãs mereciam. O consagrado ator transmite com perfeição os dilemas de um homem quebrado tentando fazer o que é certo. Passar o bastão para Scott Lang é a coisa certa a se fazer, ainda que isso traga a tona fantasmas do passado que ele preferia deixar esquecidos.

Paul Rudd foi a escolha perfeita para viver Scott Lang. O ator tem carisma, é ótimo para criar momentos cômicos e é extremamente convincente para o papel de um cara que prefere ficar preso a evitar assumir suas responsabilidades de uma vez por todas. Também é fácil ver que Rudd será uma ótima adesão aos Vingadores com seu ar debochado e o modo descontraído como lida com os problemas.

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Fechando o elenco, Evangeline Lilly e Michael Peña estão ótimos em seus papéis. Lilly vive Hope Pym, que, apesar dos desentendimentos com seu pai, ajuda a transformar gatuno Scott em super-herói. Sua dinâmica com Rudd funciona muito bem. Os dois têm muita química juntos e as cenas com os dois acontecem de forma natural. Já Michael Peña é o maior responsável pelo humor do filme. Sua presença em tela arranca risadas da plateia facilmente. Há uma cena do tipo “disse me disse” que é especialmente engraçada, provavelmente a melhor do filme.

Essa cena, aliás, deixa claro que apesar Edgar Wright ter sido afastado do projeto, muitas de suas ideias e seu estilo ainda estão presentes em Homem Formiga. À Wright foram dados os créditos pela história e pelo roteiro. Bom para o público, que pode desfrutar do humor peculiar e proprietário do diretor britânico. Há certa influência do diretor também nas cenas de ação. Alguns takes são praticamente iguais aos test footage idealizados por ele. De modo geral, o resultado final alcançado pelo diretor Peyton Reed foi satisfatório. As cenas em pequena escala são muito boas, com destaque para a primeira vez que vemos o Homem Formiga em seu tamanho reduzido.

No entanto, o filme não é perfeito. O roteiro sequer tenta fugir dos clichês básicos das histórias de herói. E a Marvel, mais uma vez, não conseguiu resolver seu problema com vilões. Com exceção de Loki, a Marvel não acertou a mão em nenhum de seus vilões e o Jaqueta Amarela é o pior até agora. Daren Cross, o antigo aprendiz de Pym que agora controla a companhia, é unidimensional. Um cara mau, sedento por poder e que faz coisas malvadas como matar ovelhinhas só porque é mau. A caricatura de um vilão de desenho infantil.

O vilão Jaqueta Amarela
O vilão Jaqueta Amarela

O desentendimento de Edgar Wright com a Marvel aconteceu porque o diretor não queria seder à pressão do estúdio para inserir os elementos do MCU na trama. Esse também tem sido um problema para a Marvel. Em Vingadores 2 a história ficou esquizofrênica em alguns momentos graças a essa obrigatoriedade de integração com os outros filmes. Em Homem Formiga, a maior parte da conexão é feita através de diálogos, o que é ótimo pois além de não atrapalhar o desenvolvimento da trama ainda funciona como alívio cômico e Easter Egg para os fãs. Mas há uma sequência onde Scott precisa recuperar um dispositivo em posse da S.H.I.E.L.D. que realmente está desconectado da trama principal e não agrega em nada para o filme. Nesse ponto Wright estava certo. Ficasse apenas em seu próprio quintal, Homem Formiga seria ainda mais redondo e interessante.

Apesar destes pontos, o filme se mantém forte. De forma despretensiosa, a Marvel foi capaz de alçar o minúsculo Homem Formiga a um lugar no coração e nas mentes do público. Fugindo da fórmula megalomaníaca do estúdio de criar batalhas de proporções imensas, Homem Formiga se passa na vizinhança, em escala minúscula. É um olhar mais intimista que se conecta imediatamente com a audiência, fazendo com o que os clichês e o vilão fraco sejam suprimidos pelos bons personagens e pela dose certa de humor. Sem dúvidas, Homem Formiga é um dos filmes mais engraçados da Marvel.

Nota: 8

PS: Há duas cenas pós-créditos, uma após os créditos principais e outra após os créditos completos. As duas valem a pena.

 

 

Homem Formiga
Ant-Man, 2015, 117min
Direção: Peyton Reed
Roteiro Edgar WrightJoe CornishAdam McKay
Elenco: Paul RuddMichael DouglasEvangeline LillyCorey StollMichael Peña
Edição: Dan LebentalColby Parker Jr.
Fotografia: Russell Carpenter

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