Crítica | Kingsman: Serviço Secreto

P Por Arthur Morais

Por quase duas décadas Hollywood e o cinema mundial tentaram representar a dita Jornada do Herói como uma fórmula arquetípica defasada para roteiros. Quanto mais os acadêmicos, críticos e cineastas pensam poder se livrar dessa fórmula e de suas estruturas mais elas se provam capazes de render filmes emocionantes e divertidos. Mad Max: Fury Road está aí para provar isto, e Kingsman: Serviço Secreto, também. Dirigido por Matthew Vaugh e estrelado por Colin Firth, Taron Egerton e pela lenda viva Samuel L. Jackson, este longa é definitivamente uma das estreias obrigatórias do primeiro semestre de 2015.

O filme conta a história de Eggsy (Egerton), um jovem em iminência de arruinar sua vida na marginalidade. Em consequência de seus atos ele conhece Harry (Firth) que lhe dá a oportunidade de participar da Kingsman, uma associação secreta e altamente qualificada de espionagem do Reino Unido. Paralelo a isso, o magnata da tecnologia Valentine (Jackson) prepara um visionário atentado mundial que esbarra nos membros da Kingsman.

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Muitos se referiram ao filme como uma paródia dos spy movies. O termo, embora não de todo errado, é muito quadrado para analisar corretamente o resultado que Kingsman conseguiu alcançar. O longa é uma ironia que brinca com conceitos da cultura pop, homenageando os clássicos de espionagem com bom humor e faz muitas referências à história do cinema. Tudo isso é feito sem prejuízo da fluidez narrativa e da coerência diegética do roteiro que, aliás, é um grande mérito da película, por mais que ele possa apresentar uma história simples e casual, a diversão é máxima e garantida.

O roteiro utiliza a supracitada Jornada do Herói em sua estrutura, seguindo-a à risca e oferecendo uma trama cheia de clichês e lugares comuns: vilões que querem destruir a humanidade, conspirações, gadgets invejáveis, sequências de ação altamente teatralizadas de tirar o fôlego. Contudo, a história do filme prova que as idéias batidas não são necessariamente algo a ser esquecido, pelo contrário, os clichês, quando retrabalhados, provam que existem porque são bons.

Kingsman é um filme irônico e subversivo, banhado por violência estilizada daquelas bem sórdidas que fazem o público vibrar e se divertir. Tiroteios, pancadarias, explosões e massacres se transformam em vibrantes e impressionantes obras de arte. Este é um dos pontos altos da película, nesse sentido, quem gosta de Quentin Tarantino e quem curtiu Kick-Ass (também de Vaughn) vai se sentir bastante à vontade com as sequências de ação do filme.

Firth e Egerton
Firth e Egerton

O visual, diálogos e a cenografia também estão impecáveis, misturam humor e bom gosto, nos apresentando cores vivas em tons realistas. Embora o filme seja regado a exageros e absurdos, o conjunto funciona muito bem e consegue emocionar o espectador emulando os sentimentos que as cenas buscam alcançar como efeito nas mentes do público.

As atuações não ficam para trás. Todos os atores tiveram um trabalho forte, competente e são convincentes. Mas, com exceção de Firth e Jackson, os membros do elenco parecem não imprimir suas próprias leituras e significados nos personagens, aparentando terem sido brilhantemente gerenciados pela direção e, portanto, expressões de mérito mais individuais não são o forte desse filme. Mas tudo bem, um elenco assim costuma ser mais simpático aos espectadores e é muito menos arriscado, já que se trata de um filme baseado em exageros e absurdos altamente estilizados e funcionais. Jackson e Firth se destacaram com atuações excelentes e personagens altamente carismáticos e chamativos, cada um concedeu uma dose ainda maior de excentricidade e subversão ao irônico e brincalhão roteiro de Kingsman.

Samuel L. Jackson como o vilão
Samuel L. Jackson como o vilão Valentine

Outro ponto para o qual eu gostaria de chamar a atenção é que este filme, ao contrário do que andaram dizendo por aí, não é uma diversão descerebrada e descompromissada, além de sua visualidade ser de fato uma verdadeira obra de arte, a trama trabalha com uma sutil crítica social e é toda permeada pela meritocracia, um tema que, na atualidade, é polêmico e sensível.

Com certeza Kingsman dá um gás novo aos filmes de espião, mesmo sendo uma brincadeira com seus conceitos. Estamos na falta de películas tão radicalmente divertidas como Kingsman. As duas horas do filme parecem se passar em menos de uma e é bem possível que o espectador saia da sessão lamentando-se pela subida dos créditos e no aguardo de uma continuação.

Nota: 10

 

 

Kingsman: Serviço Secreto
Kingsman: The Secret Service, 2015, 129 min
Direção: Matthew Vaughn
Roteiro: Jane Goldman e Matthew Vaughn
Elenco: Colin Firth,Taron Egerton,Samuel L. Jackson, Mark Strong, Mark Hamill, Sofia Boutella, Michael Caine.
Fotografia: George Richmond E
dição: Eddie Hamilton e Jon Harris

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