Crítica | Mad Max: Estrada da Fúria

T Por Vinicius Menegolo

Trinta anos se passaram desde que George Miller idealizou Mad Max. A franquia que surgiu com um filme underground, se tornou responsável por inaugurar o subgênero neo-western pós-apocalíptico que inspirou filmes como Resident Evil: Extinção (2007) e O Livro de Eli (2010). Estrada da Fúria potencializa o melhor dos originais, especialmente o cenário desértico e o clima de insanidade desenvolvidos no segundo filme. O resultado é um filme sombrio, arrojado, com ritmo frenético e visual irrepreensível.

mad-max-fury-road-interceptorEstrelada por Mel Gibson, a franquia marcou sua época ao acompanhar a jornada de Max Rockatansky, um policial honrado que vê o mundo – e seu mundo – definharem. A trilogia original se passa numa Austrália decadente e desértica com os recursos naturais são praticamente inexistentes. A humanidade enlouqueceu e se dividiu em gangues que lutam pelo bem mais precioso do planeta, a gasolina. Max é um homem sem nada a perder: seu parceiro, sua família e toda a civilização se foram. Seu mundo é fogo. E sangue.

Immortan Joe
Immortan Joe

Felizmente, Mad Max 4 não é um reboot. Sem muitas explicações, Estrada da Fúria se insere no universo já existente, deixando os originais imaculados. O novo filme começa com Max sendo feito prisioneiro do tirano Immortan Joe, que detém uma quantidade abundante de água e usa seus recursos para dominar uma população moribunda. Paralelamente, Nux (Nicholas Hoult) está se preparando para uma missão comandada pela temível Imperatriz Furiosa (Charlize Theron) para buscar combustível em uma refinaria próxima. O grupo sai em busca de gasolina – Max acorrentado ao carro de Nux como um souvenier – e não demora muito para que Furiosa desvie sua rota e inicie uma fuga. Immortan Joe envia então seus motoristas para perseguir os fugitivos e o filme se transforma numa alucinante perseguição pelo deserto.

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O visual visceral colabora para levar o universo ainda mais para o extremo da insanidade. As pessoas têm dentes podres, os corpos são malformados, tumores do tamanho de bolas de tênis são comuns. Assim como membros atrofiados, amputados ou com elefantíase. O apocalipse transformou o mundo numa espécie de freak show. Os trailers já haviam deixado claro que a fotografia seria um dos pontos fortes, e ela é realmente espetacular. As cores são lindas e o contraponto entre dia e noite é de encher os olhos. Durante o dia, os tons são fortes e amarelados, realçando a aridez e o calor com gigantescos planos abertos. À noite, um azul toma conta da tela e deixa tudo mais sombrio e intimista, é simplesmente maravilhoso.

Havia certo receio por parte do público sobre a substituição de Mel Gibson. Particularmente, eu não tinha dúvidas sobre Tom Hardy. Ele é um excelente ator, sua atuação em Locke deixa isso evidente. O ator não tentou mimetizar o personagem consagrado por Gibson, e sim deu sua própria leitura para Max, sendo capaz de transmitir em pouquíssimas palavras a essência do protagonista: um homem em conflito, que não consegue deixar de fazer o que é certo. Hardy faz com competência as cenas de ação e, assim como em Dark Knight Rises, entrega excelentes sequências de combate corpo a corpo. Difícil pensar em alguém melhor que Hardy para o papel.

Tom Hardy e Charlize Theron
Tom Hardy é Max e Charlize Theron é Imperatriz Furiosa

Charlize Theron e Nicholas Hoult também estão incríveis. Hoult vive Nux, um jovem motorista da gangue de Immortan Joe que busca encontrar sua glória na Estrada da Fúria, mesmo que isso custe sua morte. Com trejeitos de quem ingeriu grandes quantidades de drogas estimulantes, Nux é agitado e tão frenético quanto o que esta acontecendo na estrada. Já Charlize Theron é Imperatriz Furiosa, uma das pessoas mais respeitadas dentro do grupo que inicia sua fuga em busca de paz do outro lado do grande deserto. Seu personagem é de longe o mais complexo da trama, com progressões e viradas emocionais fortes. A atriz rouba a cena com uma atuação de alto nível.

Nicholas Hoult como Nux
Nicholas Hoult como Nux

Como era de se esperar de George Miller, as cenas de perseguição são filmadas com maestria. Com quase duas horas de perseguição, os ângulos e o movimento das câmeras ficaram ainda mais inventivos e audaciosos do que eram há 30 anos. Foram feitos mais de 3500 páginas de storyboard para garantir que a as câmeras estivessem posicionadas no lugar perfeito para captar o melhor de cada movimento dos carros. Além disso, praticamente todas as capotagens e explosões foram feitas sem computação gráfica. O diretor optou por ser old-school e trabalhou com maquiagem, figurinos, locações e capotagens reais, o que dá às cenas um realismo impressionante. O balé dos carros no deserto não teria o mesmo impacto nem a mesma beleza se não fosse filmado de verdade. Miller sabe o que faz e o resultado é deslumbrante.

Mad Max: Estrada da Fúria me proporcionou a melhor experiência no cinema este ano. É o melhor filme de ação de 2015 e um dos melhores filmes de ação de todos os tempos. Grandioso, o filme merece ser tratado com o devido respeito e visto em uma tela grande, de preferência IMAX. Uma obra que dará orgulho olhar pra trás e dizer que tivemos o prazer de assistir no cinema.

Nota: 10

 

Mad Max: Estrada da Fúria
Mad Max: Fury Road, 2015, 120min
Direção:
George Miller
Roteiro: 
George Miller, Brendan McCarthy, Nick Lathouris
Elenco: 
Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult, Hugh Keays-Byrne, Zoë Kravitz, Rosie Huntington-Whiteley
Fotografia: 
John Seale
Edição: 
Jason Ballantine e Margaret Sixel

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