Crítica | Demolidor 1ª temporada – Netflix

M Por Guilherme Murayama

Matt Murdock. O nome é bem menos conhecido que Bruce Wayne, Tony Stark e Peter Parker. As histórias do Demolidor ainda atingem um público bem menor que a dos grandes heróis. O filme, protagonizado por Ben Affleck, ainda reflete aspectos negativos do personagem. Contudo, a vida de Matt Murdock e do Demolidor reforça alguns dos aspectos mais interessantes dos quadrinhos, pois concilia um tom dramático semelhante ao da gigante DC Comics dentro do Universo Marvel. Na série da Netflix, a Marvel tentou trazer este tom sombrio único do vigilante para o seu universo compartilhado. De certa forma, a Marvel falhou. A série está muito distante das melhores histórias do Demolidor dentro das HQ’s. Os episódios da Netflix também passam longe de sucessos de crime e investigação como Luther, Sherlock e True Detective. Isto não significa que este Demolidor não tenha seus méritos, a qualidade é muito superior às outras tentativas recentes de seriados de heróis. Agents of S.H.I.E.L.D., The Flash e Arrow são piores e erram muito mais em tom e competência narrativa. Parece que, de passo em passo, a Marvel consegue avançar e se desenvolver muito mais que sua rival DC dentro dos seriados. É inegável a evolução entre Demolidor e Agents of S.H.I.E.L.D. Tudo parece estar melhorando.

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Charlie Cox como Demolidor

O ponto mais forte da série Demolidor é, não por acaso, a sua abertura. Elaborados pela competente Elastic, os opening credits carregam o padrão de excelência da produtora que também foi responsável pela bem sucedida abertura de True Detective. A incoerência é que fica claro que as referências dos produtores estão muito além do desempenho da série. Steven S. DeKnight e Jeph Loeb, já conhecidos pelos leitores de quadrinhos, almejavam no todo algo que apenas a Elastic conseguiu realizar.

Abertura de Demolidor na Netflix
Abertura de Demolidor na Netflix

Dentre as possibilidades de referências para o desenvolvimento da série, com certeza se destacam a fase clássica de Frank Miller e a fase contemporânea de Mark Waid. Os dois escritores abordaram de modos distintos nos quadrinhos os principais atributos do Demolidor. Entre os aspectos noir de Miller e a abordagem mais pulsante de Waid, os criadores escolheram por Miller. Contudo, ao invés de abraçar o tom de contrastes em preto e branco da fotografia noir, a direção tentou seguir um caminho próprio. Com cores não tão realistas, o bairro de Murdock ganhou tons de azul, vermelho e amarelo. A ideia é interessante, uma espécie de adaptação do noir para uma linguagem mais contemporânea e colorida. Talvez, tenha sido justamente na tentativa de encontrar um caminho próprio que a série se perdeu.

Cheios de altos e baixos, os primeiros episódios seguem uma estética semelhante à de Park Chan-Wook, o diretor coreano da trilogia de Oldboy. Contudo, sem as variações e improvisos de um cinema mais periférico, as cenas de luta americanas ficam distantes do tom realista que estrutura os filmes de Wook. Apesar de bem executadas, as cenas de luta falham em detalhes, os socos não parecem tão reais e a edição de som ressalta muito as falhas técnicas. No final do segundo episódio, uma cena de luta num corredor reforça estes contrastes. Ao mesmo tempo em que o plano sequência ousado é um avanço significativo para qualquer série da Marvel ou da Netflix, falhas técnicas de som mostram que tudo poderia ser muito mais. Demolidor-Netflix A essência do Demolidor como herói é sua imensa capacidade de dedicação para com o próximo. Em suma, Matt Murdock e o Demolidor são o símbolo dos conflitos internos de um homem tentando realizar algo além de seus limites. Diferente de outros nomes famosos dos quadrinhos, suas duas vidas são uma luta para ajudar ao outro. Como advogado, Matt Murdock se doa a causas praticamente impossíveis. Como Demolidor, Matt Murdock tenta garantir que essas causas sejam possíveis. Demolidor não é sobre glória, mas sobre como um homem bom reage mesmo depois de ser quebrado. A série da Netflix apenas toca nesses aspectos do herói. Charlie Cox transmite a confiança e a força de Murdock muito mais do que suas fraquezas. Demolidor não deveria apenas ser um conto de um herói comum, Matt Murdock não é apenas um amontoado de músculos cheios de agilidade. Falta sensibilidade, algo que está presente até mesmo nos poderes do vigilante. Falta vulnerabilidade, porque os aspectos mais humanos de Murdock só são encontrados quando ele desaba. Só a partir dessa fragilidade é que poderia emergir um homem sem medo.

O contraponto do Demolidor é Wilson Fisk, o Rei do Crime. E a série da Netflix conseguiu algo muito difícil, humanizar este vilão. Vincent D’Onofrio é um ator muito melhor que o protagonista. Com sutileza, ele trouxe para as telas a excentricidade de Fisk. Nas mãos inquietas, na variação de voz. D’Onofrio conseguiu todas as pequenas nuances. Não foi o suficiente. De tão palpável, este Fisk humano não é temível. Se existe algo de indiscutível na obra de Miller é justamente este aspecto de que O Rei do Crime não é fraco. Sua força é inumana. O Rei do Crime é imenso, ultrapassa aquilo que é real. Tem exageros singulares. Wilson Fisk é como a voz de Michael Clarke Duncan: irredutível.

Vincent D'Onofrio como Wilson Fisk, o Rei do Crime.
Vincent D’Onofrio como Wilson Fisk, o Rei do Crime.

Não foram só erros que construíram a primeira temporada de Demolidor. Os acertos se destacam no elenco coadjuvante: Elden Henson, Deborah Ann Woll, Vondie Curtis-Hall e Wai Ching Ho. Respectivamente: Foggy Nelson, Karen Page, Ben Urich e Madame Gao. Elden Henson acerta em cheio como Foggy Nelson, o advogado, sócio e melhor amigo de Murdock. É muito boa a química entre o personagem de Henson e a Karen Page de Deborah Ann Woll. Os diálogos de Nelson são o ponto alto do roteiro. O humor acentuado na fase de Mark Waid está bem presente, são nas cenas de tribunais e de advocacia em que a série da Netflix mais se aproxima do tom presente nos quadrinhos.

Deborah Ann Woll, conhecida por seu papel como Jessica Hamby em True Blood, é a mesma Karen Page ambígua e irresistível das HQ’s. Na série, ela é o primeiro dos casos quase impossíveis dos sócios Foggy Nelson e Matt Murdock, e rapidamente vira uma peça fundamental dentro do escritório. Sempre com segredos, a personagem anda na linha tênue entre o que é certo e errado. Karen Page parece que a todo tempo tem algo não resolvido no seu passado. Isso implica também em suas tentativas de agir de maneira correta ao mesmo tempo em que está sempre a um passo da beira do precipício. E, se tudo ocorrer como de costume, ela vai cair. Deborah Ann Woll consegue levar para as telas a sinceridade e os ímpetos nem sempre imprevisíveis de uma das figuras mais complexas do universo do Demolidor. Uma montanha-russa exatamente como deve ser.

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Deborah Ann Woll como Karen Page

O maior trunfo da parceria Marvel/Netflix, contudo, fica por conta de uma atriz inesperada. Wai Ching Ho, até então quase desconhecida, entrega uma Madame Gao assustadora e irrepreensível. Diferente do protagonista, a Madame Gao, que comanda um esquema peculiar de tráfico de heroína, parece ser muito inteligente e estar um passo à frente de seus adversários sejam eles criminosos ou heróis. Gao parece estar sempre pensativa, calma. E isso lhe trás uma astúcia de quem move peões. Madame Gao aparenta ser a melhor, senão a única, estrategista em toda a série.

Tecnicamente falha, a série Demolidor evidencia alguns dos maiores problemas da indústria do entretenimento atual. Inexata e incorreta, a série estabelece um aspecto ilusório de que tudo parece ser melhor do que realmente é. A fotografia está cheia de erros, mas o tom escuro e a paleta dessaturada conseguem esconder a maioria destes problemas. Contudo, ao se observar a edição de som, principalmente nas grandes cenas de luta, percebe-se que todo esse show é repleto de muita artificialidade. Os sons são imprecisos, tal qual a direção. Nomes como o de Cary Fukunaga poderiam ter feito deste Demolidor algo muito maior. O Demolidor mostrado é como o seu figurino na Netflix, algo um tanto distante do homem sem medo. Em meio a ninjas mal inseridos – muito diferente dos de Batman Begins, russos estranhos e um protagonista imaturo, a série também está cheia de acertos. O maior de todos é o elenco de suporte. Os diálogos simplesmente fluem. Demolidor é definitivamente a melhor série de heróis em andamento. Isso ainda é muito pouco. O personagem e a parceria Marvel/Netflix merecem mais. Resta apenas saber se eles vão conseguir.

Nota: 7

Recomendado para quem gostou de: Agents of S.H.I.E.L.D., Misfits e Arrow.

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