Crítica | Do Inferno (HQ)

R Por Arthur Morais

Roteirizada pelo mestre Alan Moore e desenhada por Eddie Campbell, Do Inferno é uma das melhores Graphic Novels da história, vencedora de inúmeros prêmios, e original mesmo abordando uma trama histórica já desdobrada à exaustão.

O mote de “Do Inferno” é a história do mítico e desconhecido Jack, o Estripador, figura conhecida no mundo inteiro por ter assassinado brutalmente cinco mulheres no bairro Londrino de Whitechapel, em 1888. Como o trabalho da policia não gerou resultados em descobrir a identidade do assassino, esta história verídica é alvo de especulação até os dias de hoje no jornalismo, cinema, quadrinhos e até mesmo em jogos de tabuleiro.

Para criar sua versão da história, Moore se valeu de uma pesquisa monumental que incluiu diversos documentos, desde atas policiais, passando por jornais e chegando até cartas pessoais e de imprensa, além de visitar e mapear minuciosamente a geografia de Whitechapel, onde se passa a maior parte de seu roteiro. Campbell valeu-se da mesma pesquisa e criou traços sóbrios, mas lúgubres e escuros, com páginas feitas à base de quadros simétricos e estáveis, o que causa uma sensação organizada de frieza e lentidão. As figuras humanas são retratadas de modo tecnicamente imperfeito e quase desprovidas de solidez, mas a arquitetura em volta delas é sólida e detalhada, mesmo envolvida pela escuridão aparente do bom desenho em preto e branco. O resultado do trabalho dos dois profissionais é uma história profunda e forte.

do inferno hq alan moore

Quem nos conduz por esta sombria história é o próprio Jack, o Estripador, que tem sua identidade revelada logo nas primeiras páginas. Aos poucos o leitor é tragado pela escuridão mística que encobre sua figura, a única válvula de saída para uma experiência macabra nesse nível é a figura do Inspetor Frederick Abberlinne, o detetive da Scotland Yard que serve como antagonista máximo do estripador tanto na ficção quanto na realidade. Sua figura histórica serviu de paradigma para os grandes personagens policiais da ficção. Em Do Inferno, ele é primorosamente retratado como um sujeito banal, preguiçoso e comum, que está apenas fazendo seu trabalho e nada mais.

O ponto alto de Do Inferno é sem sombra de dúvida a imersão. Moore e Campbell foram capazes de criar, com a pesquisa e as lacunas históricas, uma trama que combina simulação, no melhor estilo programa policial, com ficção literária puxada para o gótico e para o noir. As páginas da Graphic Novel são capazes de transmitir a ambigüidade de tédio e interesse dos inquéritos policiais da Inglaterra vitoriana e não tem pudores em apelar para cenas sanguinolentas e fortes que envolvem sexo e a evisceração explicita de seres humanos, tudo isso sem perder a elegância e a sutileza.

A trama da HQ é centralizada a partir de uma conspiração que combina a história da Inglaterra, a geografia londrina, assassinatos em série e o misticismo simbológico dos rituais maçônicos, tudo isso em uma história onde a crueldade está presente em cada página e nos menores detalhes do roteiro de Moore.

Por baixo dos quadros e balões, vê-se uma história alegórica na qual os assassinatos de Jack, o Estripador, funcionam como um ritual de anunciação ou de invocação do sangrento século XX, retalhado pela guerra e pela morte em massa de milhões de pessoas. Além da alegoria, o roteiro se vale da crítica social e política, pois os estilos de vida do século XIX são explicitamente colocados em comparação, e o governo é retratado como uma instituição obscurantista e preconceituosa que furta os direitos de seus cidadãos em prol da manutenção do poder e das suas aparências. Já as figuras humanas estão sempre à beira da loucura, todos esses temas são marca do velho Moore que os empregou em “V de Vingança”, “Watchmen” e “A Piada Mortal”.

Do inferno hq alan moore

Além disso, “Do inferno” é uma excelente experiência de aprendizado, mesmo sendo declaradamente uma obra de ficção. O cenário de época é retratado com rigor nos detalhes e inclui os maneirismos do inglês da era vitoriana, a rigidez dos costumes e a fidelidade à verdadeira geografia dos cenários dão uma verdadeira aula ao leitor. Em um dos trechos da Graphic Novel Jack, em pessoa, passeia por Londres com seu ajudante visitando pontos históricos e arquitetônicos que dialogam com uma história mítica, atemporal e simbológica que faz o leitor pensar sobre as implicações dessa ficção na realidade.

Tudo o que citamos aqui não passa de uma explanação superficial, pois a Graphic Novel é multifacetada e pode ser analisada por centenas de ângulos com temas diversos onde o roteiro constrói tudo com segundas intenções.

O único ponto negativo da obra de Moore e Campbell pode ser sua complexidade, de uma página a outra o leitor tem que lidar com um número muito grande de nomes, situações e referências que exploram a realidade e cobrem as lacunas da mesma com uma dose de ficção que tenta se adequar à narrativa histórica com lógica e sentido. Contudo, essa prolixidade do roteiro é proposital e, portanto, não é capaz de ofuscar o brilhantismo da trama e a beleza dos desenhos.

Em 2001, “Do Inferno” foi adaptada para os cinemas pelos Irmãos Hughes, embora não seja de toda ruim, a adaptação tem um resultado medíocre na qual Jhonny Deep interpreta o Inspetor Abberline que possui o papel central, ao contrário da HQ onde o próprio Jack é quem assume o protagonismo da história. Essa inversão fez com que o filme se tornasse um thriller de suspense barato e diferencia-se da original trama de drama psicológico e existencial que foi escrito por Moore na Graphic Novel.

Obrigatório para qualquer fã de quadrinhos, “Do Inferno” é um prato cheio para quem gosta de conspirações, tramas históricas, alegorias, histórias policiais e atmosferas sombrias.

Nota: 10

 

do inferno hq alan moore

Autores: Alan Moore (Roteiro) e Eddie Campbell (arte)
Editora (EUA): Eddie Campbell Comics e Top Shelf Productions
Editora (BR): Veneta
Preço (BR): R$ 94,90 (volume único)
Número de páginas (EUA): 256 (Edição Completa)
Número de páginas (BR): 592
Data de lançamento (EUA): 1999 (collected)
Data de lançamento (BR): Novembro de 2014

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