Crítica | Birdman (2014)

R Por Vinicius Menegolo

Repleto de originalidade, o filme de Alejandro Iñárritu é poderoso e apresenta uma coragem que há muito não se via em Hollywood. Com direção, fotografia e atuações brilhantes, Birdman merece todas as nove indicações ao Oscar que recebeu. Abusando de metalinguagem e de um ácido humor negro, Iñárritu aponta o dedo para toda a cadeia de produção do teatro e do cinema.

Michael Keaton interpreta Riggan Thomson, ator que atingiu seu ápice ao interpretar o super-herói Birdman em uma adaptação dos quadrinhos para os cinemas no começo da década de noventa. Agora, ele estrela e dirige uma peça na Broadway para tentar reerguer sua carreira decadente. O filme se passa há poucos dias da estreia e acompanhamos a ânsia de Riggan em ser bem-sucedido na empreitada. Além da própria insegurança, ele tem que lidar com com o ego inflado de seu parceiro de palco Mike Shiner (Edward Norton) e com a difícil relação com Sam (Emma Stone), sua filha – e assistente – recém saída de uma clínica de reabilitação.

As escolhas de Iñárritu na direção estão longe de serem apenas técnica pela técnica. Seu jeito de filmar cria a ilusão de um plano sequência que se estende por todo o filme, dando a impressão de que tudo foi filmado em uma única tomada. O diretor consegue causar no espectador a mesma sensação sufocante vivida por Riggan, que não consegue dormir com a iminência da estreia. Depois de vários minutos o efeito atinge seu propósito, deixando o espectador desnorteado em relação a passagem do tempo e fazendo o cérebro implorar por um corte que nunca chega. A técnica é executada com perfeição por Emmanuel Lubezki, considerado por muitos como o melhor diretor de fotografia em atividade. Nomeado sete vezes ao Oscar, seus trabalhos incluem Cidade dos Homens (2006), A Árvore da Vida (2011) e Gravidade (2013). Aqui, Lubezki faz um exímio trabalho com a luz e com as cores, indiferente às mudanças bruscas originadas pelo constante travelling da câmera. Uma fotografia digna de premiação.

Outro aspecto técnico que merece destaque é a trilha sonora do estreante Antonio Sanchez. Reflexo direto do que se passa na cabeça de Riggan, a música em Birdman é propositalmente incômoda, marcada por um incessante solo de bateria, que ajuda a intensificar o desconforto causado pelo movimento das câmeras.

Apesar dos méritos, a relação de Riggan com a tecnologia é desagradável. A figura do cinquentão que não sabe o que é Twitter e detesta as novas formas de interação é um clichê irritante. Se essa premissa se mostrou boba na comédia independente Chef (2014), em Birdman ela chega a ser patética, além de ser um elemento dispensável para a trama. O drama do personagem não é ser desconhecido, mas sim ter sua identidade roubada pela alegoria do homem-pássaro.

Riggan Thomson quer ser reconhecido. O personagem de Riggan na peça quer ser reconhecido. Michael Keaton e Alejandro Iñárritu também. Esse é o tema central de Birdman: a busca por reconhecimento e aceitação. Uma busca que não está presente só na Broadway ou em Hollywood, mas no cotidiano de todos nós.

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é um filme que certamente não agradará a todos, mas que acerta em cheio justamente por isso. Afinal, não faria sentido tamanha crítica à Hollywood e tomar o mesmo atalho de tantas outras produções. Uma obra singular e espetacular.

Nota: 9

 

birdman 2014 michael keaton edward norton

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birdman 2014 emma stone edward norton

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance), EUA, 2014, 119min
Direção: Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris
Elenco: Michael Keaton, Emma Stone, Edward Norton, Naomi Watts, Andrea Riseborough, Zach Galifianakis
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Edição: Douglas Crise, Stephen Mirrione

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