Crítica | Timbuktu (2014)

TPor Gui Cintra

Timbuktu é um bonito e comovente filme escrito e dirigido pelo cineasta Abderrahmane Sissako, da Mauritânia. O drama agradou bastante aos críticos e júris pelo mundo, conquistando dois prêmios em Cannes (o Prêmio François Chalais e o Prêmio do Júri Ecumênico) e a indicação para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano.

O diretor apresenta um forte retrato de uma situação complicada: o domínio violento de um grupo jihadista sobre uma cidade africana que passa a sofrer com a imposição de leis extremistas. No centro da narrativa está Kidane (Ibrahim Ahmed), homem humilde que mora com sua esposa Satima (Toulou Kiki) e sua filha Toya (Layla Walet Mohamed) em uma tenda no deserto. Certo dia, uma de suas vacas é morta por um pescador, o que incita um conflito entre os personagens e coloca Kidane em uma trágica condição frente às autoridades radicais.

A direção de Sissako é, de fato, muito boa e a fotografia memorável. O filme é visualmente fantástico e apresenta belíssimas imagens ambientadas na região desértica, resultados de incríveis trabalhos de cor e composição. No entanto, a obra falha com relação à história (ou pela falta dela). A proposta do roteiro foi a de se utilizar de pequenas subtramas para enriquecê-lo com variações sobre o mesmo tema (de modo reafirmativo), o que poderia funcionar como uma boa estratégia. Porém, a história principal recebe pouca atenção em seu desenvolvimento e isso o prejudica, deixando-o menos interessante do que poderia ser. A progressão dramática é pobre e faz dele menos intenso e profundo na ligação entre ideias e carga emocional, afetando a capacidade de envolvimento do espectador. Não é que o filme não trabalhe bem com emoções, muito pelo contrário: o drama de Sissako é, nesse sentido, poderoso. O ponto é exatamente como isso é alcançado: com cenas isoladas muito boas — em uma concepção de traços antológicos — e não através de uma história bem desenvolvida, o que é uma pena.

Com relação à estrutura narrativa, já se esperava um desenvolvimento mais lento rumo à exposição do conflito. A opção de se utilizar subtramas de ambientação com capacidade de incitar o interesse do espectador e caracterizar as forças antagonistas representadas pelo grupo jihadista radical é interessante. Assim, pode-se delinear de maneira clara o mundo do protagonista e mostrar o duro caminho a ser traçado, a fim de dar mais força à empatia estabelecida entre ele e o público (que, justiça seja feita, já é boa). Entretanto, essa definição acaba demorando mais do que deveria e, além disso, o que parece no início uma composição dramática profunda e instigante logo decepciona pelo fraco desenvolvimento dos eventos ligados à trama central.

Ainda assim, é importante destacar que o autor consegue trabalhar com símbolos valiosos e produz um filme que atinge o seu principal objetivo. A obra transmite sua ideologia de maneira clara através de um excelente retrato crítico da situação vivida pela cidade de Timbuktu, baseado em imagens fantásticas e cenas poderosas criadas por um talentoso artista.

Nota: 7

timbuktu1

timbuktu2
Timbuktu (2014)

Mauritânia, França, 97 min
Direção: Abderrahmane Sissako
Roteiro: Abderrahmane Sissako, Kessen Tall
Elenco: Ibrahim Ahmed, Abel Jafri, Toulou Kiki, Layla Walet Mohamed
Fotografia: Sofian El Fani
Produção: Etienne Comar, Sylvie Pialat
Lançamento no Brasil: 22/01/2015

Anúncios