Crítica | O Jogo da Imitação (2014)

B Por Guilherme Murayama

Benedict Cumberbatch é o ator do momento. Sua perfomance em Sherlock é uma das mais aclamadas dentro da televisão. Além disso, das imitações de Alan Rickman até as fotos na última apresentação dos Oscars, é inegável a imensa capacidade do ator se viralizar. Todo este sucesso de Cumberbatch pode dar a impressão de que “O Jogo da Imitação” se resume ao ator inglês. Na realidade, a história de Alan Turing tem força própria e se constrói através de um dos melhores argumentos adaptados do último ano. O filme de Morten Tyldum é atual, inesperado e tem um intenso viés dramático.

A vida de Alan Turing é certamente comovente. Para quem ainda não conhece os detalhes, sugere-se logo de cara a cinebiografia, sem trailers ou buscas na Wikipédia. O homem foi um lógico, criptoanalista e matemático britânico responsável por um conceito algorítmico fundamental para a criação do computador moderno. Mais do que isso, a Máquina de Turing foi essencial para a ciência da computação e as teorias que a envolveram deram ao cientista britânico um título de pioneiro nas pesquisas de inteligência artificial. O filme não apenas relata estes acontecimentos como também traça um paralelo com a vida perturbada – e não por isso menos cativante – de Alan Turing. Tanto as técnicas utilizadas pelo inglês para ajudar os aliados na Segunda Guerra Mundial quanto seus aspectos pessoais são muito interessantes. Portanto, a trama deve conquistar a maior parte dos espectadores justamente por retratar uma realidade tão instigante.

Diz-se pouco, mas Mark Strong, um brilhante ator britânico, também faz parte do elenco e é o ponto chave para a existência de um contraste em cena à altura da presença de Cumberbatch. Mesmo os talentosos Andrew Scott, o Prof. Moriarty da série Sherlock da BBC, e Keira Knightley, uma das protagonistas do filme, tendem a se apagar quando Benedict entra em cena. Sendo assim, é muito positiva a força de porte de Strong que consegue, mesmo com poucas palavras, criar um ponto de tensão com o protagonista. Diferente do excelente Martin Freeman, o Dr. Watson de Sherlock, Mark Strong consegue opor-se e até mesmo em alguns momentos roubar a câmera para ele. A participação de figuras mais cativantes como a do irlandês Allen Leech e do inglês Charles Dance conseguem trazer um equilíbrio ainda maior para as cenas e, por isso, tornam o filme tão bem sucedido e Cumberbatch tão incansável.

Outro ponto forte para “O Jogo da Imitação” é a presença do compositor francês Alexandre Desplat. Aos 53 anos, Desplat já foi indicado oito vezes ao Oscar – duas vezes apenas neste ano – e é o melhor do mundo atuando em sua profissão. Ainda que nomes como John Williams e Hans Zimmer chamem mais atenção, Alexandre – menos premiado – compôs nos últimos anos um trabalho inigualável em filmes como: Philomena (2013), O Fantástico Sr. Raposo (2010), O Discurso do Rei (2011), Harry Potter e as Relíquias da Morte (2010), A Árvore da Vida (2011), Moonrise Kingdom (2012), O Curioso Caso de Benjamin Button (2008), Tão longe e Tão perto (2011), Godzilla (2014), Tudo Pelo Poder (2011) e O Grande Hotel Budapeste (2014). Seu trabalho é apaixonante, as trilhas são pulsantes, impecáveis e cheias de vida. Bastante orgânicas, as músicas transmitem emoções como Williams costumava fazer em sua melhor época e pincelam sons marcantes que compõe um vínculo emotivo comum em todos os seus trabalhos. Nenhum outro compositor, nos dias atuais, cria tão bem dentro do cinema. Em “O Jogo da Imitação”, mais uma trilha imersiva e sutil composta por Desplat toca o espectador, muitas vezes sem que ele mesmo perceba. Um ponto pequeno, positivo e incomparável.

“O Jogo da Imitação” é um filme completo. Nos aspectos técnicos como: figurino, trilha e fotografia. Nas categorias principais, como: roteiro, atuações e direção. O cinema britânico a cada ano tem revelado sua força, sempre crescente. Certamente, um drama da “Segunda Guerra Mundial” testa muito bem essas competências e, assim como antes, os ingleses não falharam. Turing, cheio de problemas, é inspirador, um herói um tanto quanto incomum. “O Jogo da Imitação” não é apenas completo, como também um dos melhores filmes do ano.

Nota: 9

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O Jogo da Imitação (2014)
The Imitation Game, Inglaterra, 114min
Direção: Morten Tyldum
Roteiro: Graham Moore, baseado no livro de Andrew Hodges
Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Mark Strong, Matthew Goode, Rory Kinnear, Charles Dance, Matthew Beard
Fotografia: Oscar Faura
Edição: William Goldenberg
Trilha sonora: Alexandre Desplat

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