Crítica | Sniper Americano (2014)

C Por Guilherme Murayama

Clint Eastwood é um dos melhores diretores da atualidade. Apesar de ser mais reconhecido pelos seus filmes com viés melodramático como Menina de Ouro e As Pontes de Madison, o cineasta veterano tem também como assinatura retratos singulares da participação norte-americana em conflitos de guerra ao redor do mundo. “Sniper Americano”, filme que relata parte da vida do “mais letal atirador do exército dos EUA”, constrói um dos trabalhos mais bem realizados na carreira de Eastwood e ainda assim vem recebendo diversas críticas negativas ao redor do mundo.

Nunca foi fácil trazer para o cinema a ambiguidade das escolhas morais existentes num conflito de guerra, o ponto de vista do soldado em conflito é quase sempre esquecido ou então representado apenas como pavor extremo/ loucura. Nesta dificuldade, filmografias com enredos mais unilaterais como as de Michael Moore e Oliver Stone são muitos mais prováveis. Na outra ponta, existem os clichês hollywoodianos excedentes no patriotismo que cada vez mais perdem força num cenário mais globalizado. Entre um lado e outro, a Academia parece apreciar nos dias atuais as histórias que ficam na linha tênue entre as duas abordagens. Não é à toa que “Guerra ao Terror” ganhou o Oscar em 2009 e Kathryn Bigelow se tornou um dos grandes expoentes dentro do gênero. Mas, independente do sucesso, nem mesmo Bigelow consegue trazer tanto para este tipo de filme quanto Eastwood, cujas capacidades sempre voltam a surpreender. É sempre bem-vindo quando alguém com tanta experiência consegue arriscar, problematizar e inovar sem abandonar uma imensa história dentro do cinema. Sniper Americano é mal visto, porque é complexo. Ao mesmo tempo, também foi considerado mediano por parte da crítica brasileira exatamente por saber ser simples nas horas que convêm. Mesmo sendo polêmico, o filme não é feito para chocar. A competência do Clint octogenário permite uma série de acertos sem exageros.

Numa história sobre dever e responsabilidade, Bradley Cooper traz ao protagonista uma atuação sóbria que reforça as qualidades sutis – e não por isso pequenas – desta adaptação cinematográfica. Possivelmente, o trabalho mais intimista no gênero desde a excelente participação de Tommy Lee Jones em No Vale das Sombras (2007) – que por sinal foi realizado por Paul Haggis, um parceiro constante de Eastwood nos roteiros. Certamente, Cooper se distancia de atuações como a de Ulrich Thomsen em Brothers (Bier, 2004) e Jeremy Renner em Guerra ao Terror (2008), trazendo uma abordagem mais contida e introspectiva do que costuma ser comum dentro desta temática. Tudo ainda combina muito com a referência feita a um personagem famoso dos quadrinhos da Marvel que aparece em algumas cenas do longa. Ao contrário do que vem sendo dito, a indicação de Cooper ao Oscar é mais que merecida. É interessante ver a Academia lembrando de trabalhos menos exacerbados numa época em que Jennifer Lawrence consegue ir ao tapete vermelho por A Trapaça (Russel, 2013).

Sniper Americano leva às telas a tensão de quem tem um dedo no gatilho num território hostil, onde estão em jogo o tempo todo vidas tanto de civis quanto de militares. Como não podia ser diferente, Eastwood aborda também as consequências dos conflitos contemporâneos sem se deixar levar por caminhos fáceis. O filme não é em nenhum momento unilateral, mas não deixa de ser severo com os resultados negativos e irremediáveis da guerra. Obra de mestre.

Nota: 9

 

Recomendado pra quem gostou de: Locke (2013), Guerra ao Terror (2008) e No vale das sombras (2007)

 

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Sniper Americano (2014)
American Sniper, EUA, 132min
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Jason Hall
Elenco: Bradley Cooper, Sienna Miller, Kyle Gallner
Edição:  Joel Cox, Gary Roach
Fotografia: Tom Stern

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