Crítica | A Noite dos Mortos Vivos (1968)

B Por Arthur Morais

Bárbara (Judith O´Dea) e seu irmão Jhonny (Russel Streiner) estão em uma longa viagem para visitar o túmulo de seu pai. Quando chegam ao destino, ambos são atacados por um homem estranho e violento (Bill Hinzman, o saudoso “Zombie number one”). Jhonny morre para defender a irmã, que corre desesperadamente até chegar a uma casa de fazenda onde começa a ser cercada por outros agressores esquisitos. Em seguida, Ben (Duane Jones), um homem que aparece dirigindo uma caminhonete, junta-se a ela e relata que outros lugares também estão recebendo ataques furiosos de turbas de pessoas descontroladas e fora de si.

Dentro da casa os dois encontram mais cinco pessoas, o casal adolescente Tom (Keith Wayne) e Judy (Judith Ridley), Harry Cooper (Karl Hardman), sua esposa, Helen (Marilyn Eastman) e sua filha Karen (Kyra Schon) que foi ferida por um dos estranhos descontrolados. Em meio a conflitos e tensões, o grupo percebe que está sendo cada vez mais acuado por uma multidão de mortos vivos canibais e precisa se defender de alguma forma.

Produzido em 1968 no provinciano estado da Pensilvânia, A Noite dos Mortos Vivos é uma produção de baixo orçamento escrita por John Russo e George A. Romero,que também dirige o filme. Suas filmagens e sua distribuição funcionaram de maneira amadora e quase doméstica. O filme se desdobrou em outras duas seqüências dignas de nota e outras três não tão célebres assim.

Angustiante e tenso, este é um filme de méritos únicos, tornou-se o pai do subgênero de zumbis e o grande catalisador do subgênero “survival”, portanto, a produção Norte Americana de George Romero é um clássico absoluto e definitivo do terror que inspirou uma vasta gama de produções posteriores que copiaram sua fórmula a exaustão dentro e fora do terror.

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O filme é um divisor de águas na história do cinema independente, custou U$ 114 mil dólares e arrecadou mais de U$ 30 milhões, chamando a atenção de grandes produtoras para cineastas independentes de horror capazes de lucrar alto com baixos custos como Tobe Hooper (O Massacre da Serra Elétrica), Wes Craven (A Hora do Pesadelo) e John Carpenter (À Beira da Loucura e Halloween).

O roteiro é outra das jóias dessa produção. Profundo e denso, mas ao mesmo tempo divertido, pode entreter os espectadores em busca de simples diversão e fazer os mais filosóficos cinéfilos perderem noites de sono refletindo sobre as situações do filme, os percalços da narrativa e da jornada de cada uma das pessoas cercadas pelos mortos vivos no interior da casa.

É visível que o filme aborda como tema principal a reação humana diante do caos e do rompimento das leis sustentadas pela sociedade em um ambiente de violência atroz e morte iminente. Romero e Russo souberam provocar as mudanças adequadas em seus personagens que degeneram suas personalidades ao exagerar aquilo que eles podem usar para sobreviver.
Aos poucos, a tensão no grupo aumenta e as personalidades vão esquentando, mas não devemos nos enganar, tudo isso é feito de maneira sutil e plausível. O filme tem a competência de não criar verdadeiros monstros titânicos de crueldade e egoísmo megalomaníaco como ocorre com alguns vilões de The Walking Dead (a série e não a HQ que é outra história) ou de Resident Evil (para citar o que não há de exatamente bom no subgênero). Nesta película de 1968 o desenvolvimento dos personagens se atém aos seus aspectos mais humanos, de tal modo que mesmo quando toda a possibilidade de identificação com o público é perdida,este consegue entender e justificar os atos daquelas pessoas acuadas contra uma turba de mortos.

Criando um mito do cinema de horror, original para época, Romero introduziu os tão queridos zumbis (embora o termo zumbi não seja pronunciado no filme), antagonistas de sucesso na filmografia de horror até hoje. Em A Noite dos Mortos Vivos, eles foram definidos como cadáveres reanimados que são implacáveis na sanha por devorar carne humana e podem ser mortos quando seu cérebro é ferido. Interessante notar que essa idéia bebeu muito de fontes como The Last Man on Earth, filme de 1964 estrelado por Vincent Price, e pelo conjunto de contos Herbert West – Reanimator de H. P. Lovecraft.

Além disso, o filme contribuiu para a criação do conceito de Screen Queen e consolidou de vez as heroínas frágeis e histéricas de filmes de terror que aparecem aos montes despertando comoção, e as vezes o ódio do público.

Outro ponto alto do filme é a vasta possibilidade de interpretações em cima das intenções do roteiro e das discussões que o filme suscita, como uma leve crítica social muito influenciada pelo pós Segunda Guerra Mundial, pela Guerra Fria e pela Guerra do Vietnã que são eventos importantes para a definição da sociedade Norte Americana da segunda metade do século XX, sempre às voltas com problemas étnicos e questões humanitárias. Cabe lembrar que Duane Jones foi um dos primeiros protagonistas negros da história do cinema e suas atuações levantam discussões sobre o tema do racismo e da segregação étnica.

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À exceção de Duane Jones e Judith O´Dea, que encarnaram bem seus papéis, as atuações ficam em um patamar mínimo e são apenas aceitáveis. Boa parte das cenas são marcantes e colam na cabeça por conta da maestria que Romero e sua equipe tiveram para lidar com a falta de recursos. A maquiagem dos mortos vivos foi feita à base de cera funerária, o que funcionou perfeitamente diante das filmagens em preto e branco, ajudando o filme a adquirir a tonalidade sensorial do seu tema. Portanto, esta maquiagem, somada ao comportamento errático e violento, fez com que as criaturas convencessem e chocassem a platéia, fator que podemos estender aos personagens principais que, a despeito das atuações passáveis, foram favorecidos por este trabalho.

Todos esses fatores ajudaram a superar a falta de recursos e conseguiram se somar positivamente para uma resultado bem positivo mesmo com uma edição precária e perceptivelmente desorganizada, desso modo, George Romero conseguiu obscurecer suas falhas e dar luz aos suas qualidades inquestionáveis.

Favorecendo uma aura de suspense e mistério, mas focando-se nos humanos com a sobrevivência em cheque, a história de A Noite dos Mortos Vivos é dona de um pessimismo visceral, perturbador e convincente visto em poucas produções do gênero. Assim, este filme é obrigatório para os fãs do terror e merece ser visto por qualquer um que goste de cinema.

Nota: 9

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A Noite dos Mortos Vivos (1968)
Night of the Living Dead, EUA, 96 min
Roteiro e Direção: George A. Romero e John A. Russo
Elenco: Duane Jones, Judith O´Dea, Karl Hardman, Marilyn Eastman, Keith Wayne, Judith Ridley, Kyra Schon
Fotografia: Charles O´Dato
Edição: George A. Romero e John Russo

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