Crítica | Mommy (2014)

XPor Gui Cintra

Xavier Dolan é considerado por muitos um dos maiores jovens talentos do cinema atual. O ator e diretor canadense já conseguiu, com apenas 25 anos, assinar a direção de 5 longas e fazer barulho com quase todos eles. Em 2009, estreou com Eu Matei Minha Mãe, premiado no Festival de Cannes. Em sequência, produziu os dramas Amores Imaginários (2010) e Laurence Anyways (2012), também indicados e premiados em grandes festivais. Seu novo filme, Mommy, conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes deste ano ao lado do renomado cineasta francês Jean-Luc Godard, que lançava o longa Adeus à Linguagem.

Mommy é um filme intenso. Dando continuidade à boa fase de sua curta e promissora carreira, o diretor tira do papel uma produção impactante, bonita e dolorosa, que consegue perturbar ao mesmo tempo em que emociona. O drama conta a história de Steve (Antoine-Olivier Pilon), um adolescente problemático que sofre de déficit de atenção, e sua relação com a mãe Diane Deprès (Anne Dorval) após ser expulso do colégio por incendiar uma cafeteria. A trama se passa em meio à aprovação de uma nova lei canadense que permite aos pais entregar seus filhos com problemas mentais aos cuidados de uma instituição pública sem custos. Além disso, os personagens lidam com a chegada de uma nova vizinha: Kyla (Suzanne Clémment), que passa a se envolver com a conflituosa família. As frequentes manifestações de afeto têm que lidar com a instabilidade psicológica do garoto e compõem um ambiente complexo e instigante, no qual transbordam emoções familiares em meio a situações desequilibradas e um cenário tumultuado.

Dolan é conhecido por aplicar uma forte carga emocional às suas obras, recheando-as de traços autobiográficos que enriquecem a construção dos dramas. Em Mommy, isso não foi diferente: assistimos a retratos delicados de conflitos familiares em uma relação conturbada com a figura materna, que envolvem e convencem o público. Devemos aqui também dar crédito às boas atuações, especialmente ao considerarmos a complexidade das cenas, com destaque para o jovem Antoine no papel de Steve.

A produção é pouco convencional na proporção de tela, baseada no aspecto 1:1 (sim, um quadrado). A escolha, que ultrapassa os limites técnicos e toca na construção de sentido, estabelece um caráter intimista, além de intensificar as cenas e sufocar o espectador. Nesse sentido, os esforços do diretor também se evidenciam nos planos fechados bem trabalhados e na iluminação quente, resultados de um bom trabalho de fotografia. O cineasta, apesar das experimentações visuais, mostra-se contundente e obtém um impacto positivo; precisamos aprender a ousar com Dolan.

Dessa forma, percebe-se que a criatura é como o seu criador: intensa, original, que demanda — e merece — atenção. Mais uma vez, o estilo do cineasta se mostra evidente e contribui para os bons resultados da obra. C’est un film terrible.

Nota: 8


Mommy (2014)

Mommy, Canadá, 139 min
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Antoine-Olivier Pilon, Anne Dorval, Suzanne Clémment
Fotografia: André Turpin
Produção: Xavier Dolan, Nancy Grant
Lançamento Canadá: 19/09/2014
Lançamento Brasil: 11/12/2014

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