Crítica | The Flash (2014)

V Por Guilherme Murayama

Velocistas estão entre os personagens mais legais das histórias em quadrinhos. Tendo normalmente um raciocínio quase tão rápido quanto seus poderes, os personagens com super-velocidade costumam ter um forte viés cômico e satírico. Não é difícil imaginar que estas características podem se sobressaltar ainda mais quando adaptadas para o cinema e a televisão. Infelizmente, a série The Flash não sabe aproveitar, em seu todo, a imensa capacidade contida no principal velocista da gigante DC Comics. Isso, é claro, não significa que a série fracasse completamente. Há alguns acertos que certamente trazem um resultado acima do que se viu em Smallville e diferente do que se acompanha em Arrow.

Uma das melhores adaptações dos personagens de velocidade já vista nas telas certamente é o trabalho de Evan Peters no papel de Mercúrio em X-men: Dias de Um Futuro Esquecido (Bryan Singer, 2014). O humor irreverente, os truques de câmera e a excelente trilha sonora fizeram de sua aparição um momento único no cinema de blockbusters do último ano. De maneira alguma isso significa que as possibilidades se esgotaram. Ao contrário, o sucesso apenas ampliou a expectativa do que pode ser entregue com esse tipo de personagem. Sendo assim, fica difícil de aceitar o trabalho feito com o Barry Allen de The Flash, que não chega nem perto de apresentar o carisma do personagem no qual foi baseado.

Tentando focar num público muito específico, a série parece se esquecer da imensa capacidade que o herói poderia ter de trazer um novo tipo de espectador para essas séries do Universo DC. A falta da tentativa em criar algo novo é evidente quando o que se vê é uma cópia do que já vem sendo feito em Arrow. Tentar criar um crossover que amarre ambas as séries num único contexto também é igualmente falho se comparado, por exemplo, ao que vem sendo feito no Universo Cinematográfico Marvel. Se a ideia de criar algo novo na televisão, separado do que é visto no cinema, não é de todo ruim, a execução com certeza é falha. O resultado acaba sendo algo muito diferente do que hoje é referência em entretenimento de qualidade na televisão. Breaking Bad, Girls e True Detective são exemplos do que pode ser feito. E se o orçamento não é suficiente, ao menos o roteiro poderia ser mais bem executado. Não há porque subestimar o fã. No entanto, a entrega da série acaba por se tornar muito artificial e resulta num campo de possíveis espectadores invariavelmente limitado.

Depois de ter criado a grandiosa adaptação de Lanterna Verde para os cinemas, Greg Berlanti, que também foi o responsável pelo roteiro de Fúria de Titãs 2, deveria ficar um pouco longe da temática de super-heróis. Ainda assim, após escrever e produzir Arrow, Berlanti também se tornou um dos principais criativos envolvidos no roteiro e na execução de The Flash. Como se não bastasse, Andrew Kreisberg, que tem em seu currículo autoral a série Vampire Diaries, se junta ao time indicando que o público-alvo é muito diferente dos nerds/geeks que sustentaram por tantos anos os quadrinhos de Flash nas bancas. Não há nenhum problema em tentar encontrar um nicho específico. Se fizer sucesso, se tiver quem assista, nada mais válido. Mas a questão é que o personagem foi escrito por anos e anos para um determinado público. E, ainda que seja desconhecido para alguns, tem um imenso potencial se for trabalhado de modo a sustentar os pontos essenciais do mesmo Barry Allen dos quadrinhos. Não existe motivo real para mudar as características de um personagem tão rico. A Warner, mais uma vez, parece insegura em relação aos leitores de quadrinho. Possivelmente por isso, mira longe. Mais uma vez, a Marvel Studios, com as séries da Netflix, parece que vai ganhar a briga. Outro território, os mesmos erros. E, depois do que está sendo feito no cinema, não dá mais para dizer que os fãs de quadrinho não sustentam um produto que seja bem feito. A demanda já existe, só que a Warner não tem coragem.

Nota: 4

Recomendado para quem gostou de: Arrow (2012), Smallville (2001) e Agents of S.H.I.E.L.D. (2013).

Trailer:

The Flash
Estados Unidos, 2014, 9 episódios
Duração: 43 min
Criadores: Geoff Johns, Andrew Kreisberg, Greg Berlanti
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Rick Cosnett, Carlos Valdes, Tom Cavanagh e Jesse L. Martin.

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