Crítica | Lilyhammer

E Por Guilherme Murayama

Em Lilyhammer, acompanha-se a história de Frank “Jeitinho” Tagliano (Steven Van Zadt), mafioso nova-iorquino que se junta ao programa de testemunhas por denunciar criminosos de alta patente. Podendo escolher qualquer lugar do mundo, Frank adota como lar Lilyhammer (Noruega) por vontade própria – isso, segundo o próprio, devido a uma memória dos bem sucedidos Jogos Olímpicos de Inverno de 1994.

Essa estranha premissa funciona bem, observa-se aos poucos a pequena comuna norueguesa tradicional se moldando às vontades deslavadas de Tagliano. Correta e cheia de burocracias, a cidade é totalmente divergente dos hábitos do mafioso. E assim, emana-se o “Jeitinho” de Frank que com polidez incomum e um pouco de violência sempre arranja uma maneira de converter as situações para que essas lhe favoreçam. Com essa premissa e sem medo de satirizar o próprio berço, a série desponta como uma comédia acima da média cujos pontos fortes são a simplicidade e a capacidade de rir de si mesma.

Fácil de assistir, a série tem desagradado mais a quem considera os valores do protagonista muito tortuosos ou aos que esperam um enredo mais complexo e bem tecido. O roteiro é regular e pode desapontar o espectador que já está acostumado com as grandes reviravoltas do cinema americano. Ainda assim, de tempos em tempos, aparece uma boa surpresa na história (sem spoilers) – é bem verdade que em certo ponto Lilyhammer se mostra repetitiva, mas é certo que isso não afetará a qualidade geral da trama para a maior parte de público.

Dito isso, não há como negar que o que realmente sustenta o seriado é a capacidade de suas atuações. Steven Van Zadt, conhecido por interpretar o também mafioso Silvio Dante (a.k.a “Sil”) na premiada The Sopranos (1999-2007), constrói um anti-herói amável e cheio de trejeitos. Tagliano estapeia com as costas da mão, diz “mamma mia”, “alright” e “do me a favor”, evocando sempre com humor os clássicos mafiosos sem deixar de injetar certo ar de deboche e despretensão. Do mesmo modo, e não menores, estão as atuações coadjuvantes, com a diferença de que essas são formadas por atores praticamente desconhecidos do grande público. Trond Fausa (conhecido na América apenas pelo seu papel no filme Um Homem que Incomoda – 2006) encarna o dúbio e ingênuo Torgeir Lien, cidadão de Lillyhammer que insiste em acreditar que o mafioso Frank Tagliano é um agente secreto da polícia federal norte-americana. Não atrás em importância, e fechando o elenco de protagonistas, está o deselegante/cômico Jan Johansen, um funcionário da burocrática imigração norueguesa interpretado por Fridtjov Såtheim (Jonny Vang, 2003). Com esse elenco sólido, a série se consagra também por trazer tantos talentos inesperados, cujas atuações de alto nível saltam aos olhos do espectador.

Já considerada por muitos como um marco na história da televisão, a primeira temporada de Lillyhammer foi produzida pela emissora norueguesa NRK e depois adquirida pela Netflix para ser exibida através do serviço de streaming. Isso, somado ao próprio modelo de exibição da empresa, permitiu que uma série estrangeira, que até então poderia ser fadada ao esquecimento no mercado internacional, atingisse inclusive o próprio mercado norte-americano. Em seguida, a Netflix passou a exibir suas produções de conteúdo original como Arrested Development, seguida por House of Cards, Hemlock Grove e Orange is the New Black. Ainda que Lilyhammer não possa ser considerada como única responsável por esse processo, é certo dizer que a série teve um papel importante no que hoje é um dos modelos mais promissores de produção de seriados. Com o crescimento constante da empresa tendo ultrapassado nesse ano a marca dos 50 milhões de assinantes, já foram anunciadas outras produções originais para o serviço de streaming como “Sense8” dos Wachowski, “The Crow” de Peter Morgan e Stephen Daldry, além das produções da Marvel Studios: Demolidor, Luke Cage, Jessica Jones, Punhos de Ferro e Defensores.

Através de um humor feito com despretensão, Lilyhammer é uma excelente surpresa num novo modelo de produção. Combinando uma grande variedade de elementos peculiares, a série tem características tão contemporâneas quanto possíveis. Ainda que com um roteiro que caminha devagar, o enredo se mostra dinâmico e imprevisível. Pode parecer pouco, mas não é fácil ver tanto desapego/improvisação nas outras produções que conquistaram esse mesmo público. Lilyhammer é pra se assistir sim, e com a mesma leveza na qual foi feita.

Nota: 8

 

 

Lilyhammer
Noruega, 2012, 8 episódios
Duração: 45 min
Criadores: Eilif Skodvin, Anne Bjørnstad
Elenco: Steven Van Zandt, Trond Fausa, Fridtjov Såtheim, Steinar Sagen, Marian Saastad Ottesen, Tommy Karlsen.

 

 

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