Crítica | Thunderbolts: Fé em Monstros

E Por Guilherme Murayama

“E houve um dia como nenhum outro, quando os maiores heróis da terra se viram unidos contra uma ameaça! Naquela dia, os Vingadores nasceram, para combater os inimigos que nenhum herói poderia enfrentar sozinho!”. Mas esse dia passou. São tempos sombrios, não há como negar. E é quando o mundo enfrenta seus maiores desafios, numa crise de fé, que surge uma força criada pelo governo e liderada por Norman Osborn: os Thunderbolts.

Formados originalmente como um grupo de vilões, os Thunderbolts têm sua gênese nos Mestres do Terror, uma equipe que tenta se passar por benfeitora, mas que acaba sendo desmascarada pelos Vingadores após o desenrolar de uma investigação. Tendo vários membros ao longo dos anos, os Thunderbolts se tornaram uma mistura de vilões regenerados, mercenários e anti-heróis. Nessa formação, pós Guerra-Civil, o grupo liderado por Osborn (ex-Duende Verde) atua na captura de super-humanos não registrados. Como em outros momentos, a equipe fica no limiar entre o heroísmo e a sordidez. Sendo muitas vezes pautados por um idealismo inalcançável, os membros acabam por recorrer a métodos não ortodoxos que claramente se opõe à figura arquetípica do herói. Obviamente, a vocação heróica é exceção e os empreendimentos por justiça acabam cedendo a motivos egoístas como vingança, vaidade e glória pessoal. O enredo de Warren Ellis, contudo, apenas flerta com a dor dos vícios sem esbarrar em questões de maior ambiguidade ou dramas de cunho moral. Aonde em outros momentos a ação poderia fazer com que a trama brilhasse, há em “Thunderbolts – Fé em Monstros” uma necessidade não concretizada de uma abordagem mais complexa que traga sobrevida à riqueza dessa temática.

A arte do brasileiro Mike Deodato Jr. é certamente o ponto alto da HQ. Em alguns momentos o ilustrador foge da regularidade das páginas comuns e entrega um dos melhores trabalhos de sua carreira. O tom sombrio que se estabelece nesse trabalho e o fluxo contínuo dos movimentos dão um aspecto cinematográfico que agrega realismo a cenas que de outra forma certamente seriam inverossímeis. Por fim, ângulos inusitados e um humor particular – inclusive com referências específicas do repertório brasileiro, sem spoiler – vêm para retificar os elogios dos que defendem a evolução do artista nos últimos anos.

Tendo uma grande variedade de personagens, alguns icônicos (Venom, Mercenário, Rocha Lunar) e outros nem tanto (Soprano, Homem-Radioativo, Suplício e Espadachim), Thundebolts: Fé em Monstros é uma obra acima da média que merece ser lida. Contudo, é difícil não perceber que há, nos conturbados integrantes da equipe e no contexto pós-guerra civil, conteúdo suficiente para histórias mais profundas, dramáticas e perturbadoras. As possibilidades desse grupo de personagens, não inerentemente maus e que tendem à catástrofe, são imensas. O argumento pede mais, há um vasto campo inexplorado de tragédias e fracassos que poderiam fazer dessa HQ razoável uma obra-prima. Considerando-se essas faltas, o resultado final é bom e só deve somar às prateleiras daqueles que já têm certo apresso pelo Universo Marvel nos quadrinhos.

Nota: 7

Thunderbolts: Fé em monstros
Originalmente publicado em Thunderbolts #110 a # 115 e Civil War: Choosing Sides.
Autores: Warren Ellis (Roteiro) e Mike Deodato Jr. (Arte)
Editora (EUA): Marvel Comics
Editora (BR): Salvat
Preço (EUA): US$ 29,99 (Ultimate Collection)
Preço (BR): R$ 32,90
Páginas (EUA): 296 (Ultimate Collection)
Páginas (BR): 160
Lançamento (EUA): 2007
Lançamento (BR): Outubro de 2014
Público: Jovem/Adulto – contém cenas de violência

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*Introdução baseada na epígrafe da HQ

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